Meu Coração É Preto, Branco e Azul

Enviado por Andrea Vieira

ll_picnikFinal do brasileirão de 1977. Eu tinha 12 anos e estava perplexa, pois via o meu pai chorar pela primeira vez. A lágrima descia discreta, silenciosa como o Mineirão. Agarrado à bandeira do Clube Atlético Mineiro, ele parecia não acreditar no placar definido nos pênaltis. São Paulo sagrou-se campeão nacional para a tristeza da massa atleticana.

Nunca vou me esquecer dos torcedores queimando suas bandeiras. Fiquei aflita à espera de um movimento dele. Mas o isqueiro permaneceu no fundo do bolso e meu pai se recusou a tocar fogo na flâmula do Galo. Afinal, não foi para isso que saiu da pequena cidade, a 320 quilômetros da Capital, com mulher, filhos e sogro, espremidos num Fiat 147.

Passados 31 anos – um ano e 10 meses após a morte do meu pai – estou de volta ao Mineirão. Igualmente emocionada, sentindo como nunca a falta que ele me faz. Outra vez não consigo tirar os olhos da torcida. Do meu lado, o menino de 17 anos pula, grita, canta, filma tudo com o seu celular. Fala 10 palavrões por minuto e responde aos comandos da torcida celeste. Isso mesmo. O neto do atleticano apaixonado negou a raça e nasceu cruzeirense, tal como o pai.  

Na noite do meu retorno ao Mineirão, o Cruzeiro abre o marcador contra o Grêmio aos 14 segundos do primeiro tempo. Um lindo gol de um jogador que não conheço. Ele me abraça e diz: “ô mãe, você é mesmo pé quente”.

A Comedora de Ópio

andrea vieiraNome: Andrea Vieira

Cidade: Belo Horizonte

Profissão: Jornalista

Clube do Coração: Galo, e como diz o texto, com uma pontinha de Cruzeiro…

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8 Respostas

  1. Lindo demais Andrea!!!
    Só mesmo um coração de mãe pra suportar tantas, e tão diversas, cores convivendo no peito!
    Seu texto é um exemplo de que a convivência entre torcedores pode ser muito mais harmoniosa do que é.
    No futebol não existem inimigos, apenas rivais…
    Parabéns pelo texto e mais uma vez obrigado pela participação!

  2. Dea querida, além de excelente profissional, é capaz de emocionar através das delicadezas da vida, adoro!
    =)

  3. Belo relato, Andrea!
    Fui vendo tudo, como se fosse um filme. Muito legal. Ainda mais porque o final foi feliz!
    Zêêêêêêêêrooo!

    Rafael Igor
    http://www.passesdeletra.blogspot.com

  4. Texto muito legal Andréa.
    Mas….
    Será que no meio de tanta coisa bonita não existe um espaço para o meu América. Nós somos resignados, não queimamos bandeiras, não disputamos a final do brasileirão, aliás, nem no brasileirinho estamos, e deve ter um tempão que nem jogamos no Mineirão.
    Mas americano é americano, nunca perde a esperança.
    PS – Pelo menos não andamos de Fiat 147. Isso é uma alegria !!!

  5. Querida Amiga, liiiiiiiidoooooo de viver!!! Só mesmo você pra escrever assim. Pena que este pequeno grande homem de 17 anos seja cruzeirense e não vai viver as mesmas belas e grandes emoções de ser um autentico atleticano!!!! (rsrsrsrs).

  6. Andreia…

    É incrível o que o amor pode fazer com uma pessoa, no seu caso dois amores! O amor de uma filha e o amor de mãe… Cresceu admirando um time e agora se dividiu…
    Isso prova que é possível as pessoas conviverem pacificamente, aceitar e respeita a escolha dos outros, aos torcedores “rivais”, fica a lição de aprender a conviver com os outros sem violência, sem provocações, apenas o amor pelo seu time e o respeito pelo rival…
    Afinal de contas, o que seria do Cruzeiro sem o Atlético MG? Um precisa do outro, um não é nada sem o outro…

  7. Olá Andreia,

    em primeiro lugar parabéns pelo texto e envolvimento com o futebol.
    Sou completamente da paz e inclusive a favor do movimento de extinção das torcidas organizadas, devido à violência.
    Porém, apenas para efeito de reflexão, gostaria de saber como fica esta questão de
    “Atleticana com uma pontinha de Cruzeirense”.
    Entre os homens pessoalmente nunca escutei expressão semelhante.
    De ambos os lados (Atleticanos e Cruzeirenses).
    Você considera este sentimento como algo do universo feminino ou característica de personalidade independente de sexo?
    Você consegue enxergar diferenças entre as maneiras de torcer feminina e masculina?
    Será que com o crescente interesse das mulheres pelo futebol este tipo de afirmação será mais frequente?
    Grande abraço e sucesso!

  8. OI Felipe,

    Obrigada pelo seu comentário.

    Confesso que a minha visão do futebol sempre foi influenciada pelos homens da minha vida.

    Acho que os homens têm muito o que aprender com o jeito feminino de torcer. Nós vamos aos estádios sofremos, gritamos e pulamos. Mas sem ofensa, sem violência, sem baixaria e porrada.

    Parece que a testosterona vai a mil, quando os homens estão numa torcida e aí vale tudo.

    Meu sonho é ir com minha familia (filho cruzeirense e marido atleticano) num clássico no Mineirão. Por enquanto, infelizmente, não tivemos coragem.

    Abraços

    Andrea

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