Quando Deus te olha de perto…

A Cultura Católica se baseia na doutrina do medo.

Nascemos pecadores, culpados. E crescemos sob o julgamento de uma divindade irada.

Deus de dilúvios e pragas. Sempre pronto a punir, a castigar.

Um Deus controlador e egocêntrico, capaz de jogar o próprio filho aos leões só para provar que estava certo. Impiedoso.

E assim floresceu e cresceu a civilização católica. Temente, obediente. E mesmo assim vez ou outra castigada.

Quando Maradona foi anunciado como novo treinador da Seleção Argentina de Futebol choveram críticas e pedradas. O próprio Ópio do Povo deu sua cutucada, dizendo sentir um cheiro de tango e tragédia no ar.

Mas uma coisa os críticos se esqueceram de levar em conta. O anúncio de Maradona como treinador da Alvi-Celeste vai muito além do folclore que, daqui, podemos ver.

Colocá-lo no cargo de treinador da seleção nacional é uma tentativa de resgate daquilo que todos nós, brasileiros, reclamamos em nosso escrete canarinho. Amor à camisa.

O eterno 10 não é simplesmente um baixinho destemperado e polêmico, para os hermanos Maradona é Deus. E que não venham aqui criticar a postura do povo argentino porque cada um acredita em seu Deus como ele é.

Divindades com cabeças de elefantes, raposas, Deuses etéreos e sem corpos, tudo isso e muito mais é cultuado mundo afora. Então por que Maradona não pode ser Deus? Nem que seja pra alguns poucos loucos – espalhados pela Argentina, pelo sul da Itália ou pelo Reino Unido resistente ao Império da Rainha – ele pode.

E para os jogadores argentinos Maradona é mesmo um Deus.

A geração de Riquelme viu a Copa de 86. E viu com olhos infantis, tão propícios a criação de Deuses e Heróis. Esses jogadores que – para cima ou para baixo – beiram os 30 anos acompanharam as diabruras de Maradona no México e em Nápoles. E com certeza não se esqueceram do 10, nem de la Mano de Dios.

Já a geração de Messi, Aguero e Gago não viu Maradona em seu auge. Eles cresceram ouvindo as histórias de Diego e puderam ver o último suspiro do gênio, o mundial de 94. Crianças, também puderam construir o mito do Diego imbatível, derrubado apenas pelos engravatados da Fifa.

Maradona, como um Deus, já cobrou de seus rebentos: Vocês terão que jogar pelo país e por mim! E todos responderam afirmativamente.

Nos poucos treinamentos desta semana notou-se um brilho de fascínio e admiração nos olhos dos jogadores argentinos. Eles não olham Maradona como um treinador, como um comum. Diego é mesmo Deus.

A Federação Argentina busca com Maradona resgatar o velho e esquecido amor à camisa. É a tentativa de despertar interesse e incutir responsabilidades em jogadores milionários, mundialmente famosos e adorados.

A idéia é que com Deus tão perto os jogadores – tementes e crentes – se doem mais, se entreguem de corpo e alma às cores da nação.

O resgate de valores perdidos e massacrados pela sociedade moderna é algo a ser louvado, mas não sei se a doutrina do medo – consagrada pelo império cristão – funciona no mundo quase pagão do futebol.

O certo é que o time argentino é o mais talentoso dos últimos tempos, aliás, é o mais talentoso do pós-Maradona.

Vamos ver se com Deus no comando todo talento poderá ser desfrutado por nós, pobres mortais.

Buena Suerte al Diez!

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Amor é bom quando é dado sem pedir…

caio junior treinadorNa semana passada Caio Júnior falou sobre a frustração de nunca ouvir seu nome cantado pela torcida flamenguista no Maracanã.

Neste domingo a nação rubro negra, solidária à dor do treinador, gritou para que todos pudessem ouvir Ah, é Caio Júnior!

Ele gostou. Sorriu, agradeceu.

Mas como bom pessimista que é não pôde deixar de pontuar – em todas entrevistas depois do jogo contra o Palmeiras – que a manifestação da torcida não havia sido espontânea, não era fruto de amor.

Que o grito que ecoou nas arquibancadas era mais um afago em virtude de suas declarações.

Na hora me lembrei do genial Ataulfo Alves, cantor da Amélia, parceiro de alma e de música do querido Mário Lago.

E da belíssima Se a Saudade me Apertar, feita em parceria com Jorge de Castro.

Como setenciou Ataulfo em seu samba

O amor é muito bom quando é dado sem pedir…

Se a Saudade me Apertar – Ataulfo Alves e Jorge de Castro

Foto: Blog Urubuzada