Sobre amadores e amistosos

Enviado pela leitora Val Prochnow

Não me lembro a 1ª vez que ouvi o pai falar sobre futebol, mas acho que isso se deu antes mesmo de eu ter nascido, na barriga da mãe. Seu Ezio foi jogador, dos bons, segundo um tio que o acompanhava, Nem era casado ainda, e defendia a camisa 8 no time da Escola Agrotécnica de Muzambinho, futebol amador, como gosta sempre de frisar.

pai no time de muzambinho

Já em Belo Horizonte, teve o tempo do clube e das peladas no sítio da família em que pudemos acompanhar, as três filhas, sua alegria aos finais-de-semana. O clube da esquina (da nossa antiga casa) reunia a turma do bairro. As mulheres, raras, ficavam na arquibancada com crianças e adolescentes pediam pra entrar em campo. Lembro-me que não raro, meus amigos – os meninos da turma da rua debaixo – jogavam com os pais e o meu, coitado, só podia mesmo contar com os aplausos das filhas na platéia.

Era o tempo do futebolzinho falado assim por puro carinho, do domingo descompromissado, da farra masculina que eu, até hoje, invejo: nada tinha importância além daquilo que acontecia em campo. Achava engraçado: eles se xingavam, brigavam, e era só o juiz improvisado marcar fim de jogo e todos se abraçavam, numa confraternização própria. Coisas de futebol.

Numa dessas voltas pra casa, num desses finais de semana, caminhando no estreito passeio que ladeava o campo, ouvi pela primeira vez duas palavras, ainda novas no meu vocabulário infantil.  E desde esse dia, fiquei sabendo que o pai jogava amistosos e que o futebol praticado pela sua turma era futebol amador.

Fui pra escola pronta pra dividir as descobertas do fim de semana. Aproximei-me da professora e disparei, orgulhosa que só:

_ Sabia que meu pai joga um futebol diferente? É um tal de futebol amistoso. Ah, e ele é é amador, sabia?

A professora sacou que eu não sabia o que estava falando e seguiu o papo, perguntando se eu sabia o que significavam as tais palavras.

Diante do meu não tímido, ela me explicou assim:

_ Seu pai é amador, pois ele não joga profissionalmente. Ele é veterinário, não é isso?

_ É. E mágico também…

_ Então, veterinário é a profissão dele. O futebol, por sua vez, é o seu passatempo, entende? Ele não ganha pra jogar…

_ Hum.

_ Então ele não é jogador profissional, ele é um não profissional do futebol, logo, amador, entende?, E ele joga amistoso porque o jogo não tem disputa por título, não tem campeonato pra disputar, ou qualquer outra coisa assim. Eles jogam sem a preocupação de colocação, embora joguem pra vencer… entendeu?

Fiz que sim com a cabeça, mas na real achei tudo muito estranho – principalmente isso da professora sempre me perguntar se eu tinha entendido como se fosse obrigação minha entender. Em casa, na hora do almoço, fiz as mesmas perguntas pro pai antecipando as respostas que recebi e enchendo-o de novas interrogações.

friendship_football-futebol_e_amizade-companheirismo-futebol_amador_ A professora disse que amador é quem joga lá no clube e que não estuda pra isso. Disse também que o jogo de vocês é diferente desses que passam na TV porque vocês não jogam pra ganhar taça, mas que mesmo assim todo mundo quer ganhar. Ela disse assim, que vocês jogam sem precisar ganhar, mas que querem ganhar e se ganham não ganham nada…Como é que é isso?

O pai interrompeu a garfada, assentou os talheres no prato, riu e me contou:

_ A professora tá um bocado certa filha, mas eu prefiro pensar que lá no clube a gente é amador porque a gente ama, sobretudo: o jogo, a bola, os amigos, os lances todos que acontecem por causa dessa reunião. E são jogos amistosos sim, tentaram até botar um campeonato no clube, mas a turma achou uma bobagem e desistiu. Bom mesmo é jogar bonito, leal, preocupado com o colega que também tá jogando, mesmo que ele seja do time oposto. Na verdade, a turma lá do clube ama ser amador e ama jogar amistosamente. Amistoso vem ou devia vir de amigo, sabia? Então é isso, somos amantes do futebol entre amigos!

Ele nem perguntou se eu tinha entendido. Acho que meus olhos já tinham lhe dado a resposta.

Valéria Prochnow é uma jornalista belo horizontina especializada em redes sociais. Colaboradora, entre outros, do Projeto Eutanásia.

Imagens: Acervo pessoal de Valéria Prochnow e Harvey Finch
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