O futebol da fome

Na manhã desta quinta, 9 de fevereiro, Wendel Junio Venâncio da Silva (natural de São João Nepomuceno/MG), de 14 anos, faleceu durante um teste para ingressar ao Sub 15 do Vasco.

A peneira acontecia no CT de Itaguaí, de propriedade do ex jogador Pedrinho Vicençote.

Por volta das 9 e meia da manhã, cerca de meia hora após o início do treino, o menino desmaiou em campo e teve uma convulsão.

Sem equipe médica no local, Wendel foi levado a uma Unidade de Pronto Atendimento próxima ao CT de Itaguaí pelo treinador do Sub 15 do Vasco, o ex lateral cruzmaltino Cássio, mas o menino chegou à Upa já sem vida.

A causa da morte ainda não foi desvendada e o laudo da necropsia só deve sair em 3 ou 4 semanas.

Informações não oficiais do portal SuperVasco dão conta de que Wendel não havia se alimentado na noite anterior e nem na manhã da quinta feira, o que expõe ainda mais a mazela em que vive o clube de São Januário, incapaz inclusive de fornecer alimentação aos jovens que buscam em suas peneiras o sonho de uma vida melhor.

Tudo bem que Wendel, assim como todos os outros garotos que são despejados nos testes cruzmaltinos, não era atleta do Vasco e, portanto, o clube não tinha responsabilidade sobre ele. Mas mesmo não sendo obrigação, é um absurdo que o time de São Januário não forneça nem mesmo a mais básica das condições para a prática esportiva. Sem falar na falta de uma equipe médica no local, algo pra lá de inaceitável.

A morte de Wendel abre as portas do mais obscuro porão do futebol brasileiro, as condições das categorias de base. E aqui, há muito, já não falo do campo e bola, de condições técnicas, da formação do jogador de futebol.

O buraco é muito mais embaixo.

Anualmente milhares de jovens ingressam esperançosos em peneiras das divisões de base de clubes médios e grandes do país. Destes milhares, contam-se nos dedos os que vingarão, os que terão sucesso e conseguirão fazer parte da minoria absoluta de jogadores milionários, transformados em celebridades por uma sociedade que pouco ou nada olha para a educação.

Os que não cabem nos dedos da mão seguirão outros caminhos bem menos glamourosos. Muitos pularão de peneira em peneira, buscando o sucesso que não foi alcançado no clube anterior. Outros tantos nunca serão aprovados, restando a amarga sensação de que a sorte poderia ter sido diferente. Existem ainda aqueles que serão aprovados, aproveitados nas categorias de base, mas que, na hora de dar o passo final rumo ao futebol profissional, ficarão restritos a times de pouca ou nenhuma expressão, engrossando as estatísticas dos atletas que recebem entre um e 3 salários mínimos e que são a maioria absoluta na triste realidade do futebol da fome.

Sem falar naqueles que são aprovados, passam por todas as categorias menores e, aos 18 anos, são devolvidos ao núcleo familiar como bichos, sem nenhuma formação fora das 4 linhas e com o selo do fracasso na testa que diz, este não serve mais.

A questão das categorias de base é dramática e merece uma profunda reflexão de todos, da mídia, sociedade e, principalmente, do mundo da bola. Diariamente o Estatuto da Criança e do Adolescente é estuprado por clubes e empresários que aliciam jovens de diferentes partes do país e desrespeitam seu artigo 19 que fala que toda criança e adolescente tem o direito de ser criada e educada no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta. E o ambiente nos alojamentos das categorias menores não pode ser chamado, em hipótese alguma, de família substituta.

O Parlamento Europeu já declarou, em 2006, que o futebol se presta ao tráfico de pessoas, principalmente de menores. E as histórias de abuso sexual e de poder nas categorias de base são tão frequentes que podem ser colocadas como regra e não como exceção.

Além de tudo isto, não há formação dos cidadãos. Ou o menino vira jogador, ou vira um nada. Porque até os 18 anos ele só chuta bola. Os clubes não oferecem formação profissional fora do futebol, inserção à cultura, nada. Estudar é quase impossível diante da rotina de treinos, jogos e viagens. E os que insistem, têm acesso a uma educação pior que básica que não vai além do papel, do diploma.

O caso Wendel foi uma tragédia que chamou a atenção da mídia e da sociedade como um todo para as mazelas da base. Mas o drama não reside apenas na morte. Em um país de miseráveis e esfomeados, sem educação e nenhum tipo de serviço básico, milhões de jovens seguem vendo na bola a única saída. Mas ninguém os revela os verdadeiros números do futebol; os 98% de jogadores que não ganham mais que 3 salários mínimos, o único jovem que vinga diante das centenas ou milhares que tentam.

Enquanto seguirmos este modelo que privilegia o negócio futebol em detrimento do ser humano, muitos outros Wendels aparecerão. Mas pior que isto são as histórias dos Josés e Joãos que nunca ganham os holofotes; histórias de desprezo pelas pessoas, de desrespeito às leis.

Histórias tristes que seguem escondidas debaixo do tapete ou trancadas no submundo frio e escuro dos porões do futebol que, como nosso país, é o futebol da fome.

Imagens: Quero Saber Mais CM 2010 e The Duchess

10 motivos para apoiar o #ForaRicardoTeixeira

Se você acha um disparate que uma entidade, dita como democrática, seja presidida por mais de duas décadas pelo mesmo homem, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha uma toleima que um sujeito vá rotineiramente a Zurique nos últimos 20 anos e nunca tenha visto os vitrais de Marc Chagall, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha uma contrassenso que um presidente de qualquer entidade dê uma canetada prolongando seu próprio mandato de 4 para 7 anos, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha um despautério que alguém venda seu voto em qualquer tipo de eleição, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha um absurdo que alguém compre votos em qualquer tipo de eleição, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha uma estolidez um sujeito passar por uma vitrine e ficar impressionado com um casaco de pele que custa apenas mil euros, apoie o #ForaRicardoteixeira.

Se você acha sem razão que todo o poder do futebol brasileiro fique nas mãos de um único homem, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha bizarro que a Copa do Mundo, que tem como sede um PAÍS, esteja nas mãos de um único homem, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha um dislate que o presidente do comitê organizador de uma Copa do Mundo ameace a imprensa, inclusive com promessas de não credenciamento para o evento, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Se você acha uma vergonha qualquer tipo de arrogância e prepotência, apoie o #ForaRicardoTeixeira.

Desde a meia noite desta quinta, 21 de julho, está no ar o #ForaRicardoTeixeira, site que se propõe a aglutinar tudo que sai nas redes sobre o reizinho Ricardo Teixeira, o déspota do futebol brasileiro.

O Ópio do Povo aprova esta idéia!

E se você concorda com um destes 10 motivos ou possui qualquer outro, então apoie o

#ForaRicardoTeixeira!

Imagem: Print do #ForaRicardoTeixeira

A Fifa, a pizza e as farinhas do mesmo saco

Na última semana, Joseph Blatter foi reeleito para seu 4º mandato à frente da Fifa.

Candidato único, Blatter foi eleito entre uma tempestade de escândalos e acusações.

Suborno, compra de votos e abuso de poder, coisas que fazem parte da Fifa desde que Havelange desbancou o Sir Stanley Rous do comando do futebol mundial, em 1974.

Nesta última crise da cartolagem mundial do futebol, 3 nomes foram escolhidos para pagar o pato.

Mohammed Bin Hammam, ex presidente da Federação do Catar e atual presidente da Federação Asiática, foi impedido de enfrentar Blatter na eleição e suspenso de suas atividades.

Jack Warner, vice da Fifa e presidente da Concacaf. A exemplo de Bin Hammam, também foi suspenso de suas atividades.

Chuck Blazer, vice presidente da Federação Estadounidense de Futebol e Secretário Executivo da Concacaf. Blazer foi quem jogou a merda no ventilador nesta última onda de acusações e acabou afastado da Concacaf pelo presidente interino, Lisle Austin, presidente da Federação de Barbados.

O interessante é que se olharmos para trás, veremos que tanto Bin Hammam, como Jack Warner e Chuck Blazer faziam parte do séquito, quase real, de Sepp Blatter na família Fifa.

Bin Hammam foi o presidente do Projeto Goal, carro chefe da primeira administração de Blatter na Fifa. Em tese, o Projeto Goal serviria para promover melhorias estruturais nas federações de futebol pelo mundo. Com uma verba monstruosa e fiscalização quase zero do Comitê Financeiro da Fifa, do qual o próprio Bin Hammam também era membro, o Goal transformou-se em moeda de troca, constituindo-se em um importante instrumento para a aquisição de votos e aliados políticos para a turma de Blatter. E segundo o livro Jogo Sujo, do escocês Andrew Jennings, Bin Hammam foi um dos responsáveis pelos sacos de dinheiro que garantiram a primeira reeleição de Joseph Blatter.

Jack Warner era o vice do argentino Julio Grondona no Comitê Financeiro da Fifa. Sempre foi um cão de guarda e um cego defensor de Sepp Blatter. Ex presidente da Federação de Futebol de Trinidad e Tobago, estava à frente da Concacaf desde 1990. Nas eleições da Fifa, sua Confederação sempre votou em bloco e, desde que Blatter lá está, sempre apoiou o suiço. Warner é responsável por uma série de tretas envolvendo Fifa, Concacaf e o futebol nas Américas do Norte, Central e Caribe. Com seu poder político, Warner levou o Mundial Sub 17 de 2001 para Trinidad e como faturou! Alugou à Fifa o Centro de Treinamento da Federação trinitina, construído pela própria Fifa com dinheiro do Projeto Goal. Cobrou as hospedagens no hotel do tal centro de treinamento, também construído com dinheiro Fifa. A alimentação dos atletas, árbitros e dirigentes ficou a cargo de um  de seus filhos, assim como um projeto piloto de totens e internet, que teve o mundial sub 17 como plataforma teste. Até as passagens aéreas para o mundial saíram de uma agência trinitina, não respeitando um contrato prévio da Fifa com uma agência suiça de viagens.

Chuck Blazer sempre foi uma espécie de cachorrinho de estimação de Jack Warner. Criado pelo trinitino, Blazer cresceu no futebol levando para o mundo da bola toda sua experiência de mercado. É um dos responsáveis pela mudança da Concacaf para a Trump Tower, em Nova Iorque, um dos espaços comerciais mais caros do mundo. A ascensão de Blazer no futebol foi meteórica, muito em virtude de sua canina fidelidade a Jack Warner. Blazer foi uma das figuras fundamentais no processo de desmoralização do camaronês Issa Hayatou – presidente da Confederação Africana de Futebol e candidato à presidência da Fifa em 2002 – na primeira reeleição de Blatter.

Para aqueles que pensam que a Fifa viverá novos tempos, de transparência e moralidade, é bom colocar as barbas de molho. As denúncia de corrupção, suborno e compra de votos mais uma vez acabaram em pizza. E o pior, nada de novo se avista no mundo da cartolagem, as farinhas continuam as mesmas, as velhas farinhas do mesmo saco.

Imagens: BBCSumadhura

Copa América Peronista

Nada melhor que o futebol para vencer uma eleição.

E disto sabe bem Cristina Kirchner.

Em 2009, a presidenta da Argentina aproveitou o imbróglio entre AFA e TyC Sports para comprar os direitos de transmissão do campeonato argentino de futebol para a TV Pública, o famoso Canal 7.

O acordo foi fechado em 600 milhões de pesos, o Governo acabou pagando 900 e arrecadando apenas 6 milhões de dólares com a publicidade nas transmissões das partidas. Mas a presidenta não pareceu se importar com o déficit monstruoso, afinal, o futebol é do povo! Sem falar nas inúmeras propagandas estatais durante os jogos que versam sobre as grandes obras e os vanços de sua administração, ou seja, na ótica peronista do Partido Justicialista, acabou sendo um bom negócio.

Outro grande negócio é a Copa América. A 43ª edição do torneio acontecerá na Argentina e terá início no dia 1º de julho, meses antes das eleições presidenciais dos nossos vizinhos.

Serão 8 sedes, 6 delas capitais de províncias comandadas pelo Partido Justicialista ( o mesmo da presidenta Cristina Kirchner, partido detentor do legado Peronista) ou por seus aliados peronistas. São elas:

Córdoba – Capital da província homônima, governada por Juan Schiaretti, do UpC (Unión por Córdoba), aliado do governo central. Schiaretti vem de uma corrente radical do peronismo de esquerda, viveu exilado em Belo Horizonte durante a ditadura Videla e, na capital mineira, chegou ao cargo de vice diretor administrativo da Fiat.

La Plata – Capital da província de Buenos Aires, governada por Daniel Scioli, da Frente para la Victoria, aliança de partidos de orientação peronista. Scioli é um ex esportista (piloto de lanchas, chegou a ser vice campeão mundial de Motonáutica) e foi vice presidente no mandato de Néstor Kirchner, o ex marido e predecessor de Cristina no governo central do país.

Mendoza – Capital da província homônima, governada por Celso Jaque, do Partido Justicialista. Jaque tem mais de 25 anos na militância peronista.

Salta – Capital da província homônima, governada por Juan Manuel Urtubey. O governador tem suas raízes políticas fincadas no Peronismo e no Partido Justicialista, mas se elegeu através da aliança entre a Frente para la Victoria e o PRS (Partido Renovador de Salta), considerado um dos mais radicais entre os partidos de extrema direita Argentina.

San Juan –  Capital da província homônima, governada por José Luis Gioja, do Partido Justicialista. Gioja é um dos ícones do chamado Kirchnerismo, a vertente recauchutada do velho peronismo.

San Salvador de Jujuy – Capital da província de Jujuy, governada por Walter Barrionuevo, do Partido Justicialista. Barrionuevo fez parte do Governo Menem e foi nesta época que cunhou uma das maiores pérolas da história da política alvi celeste: “Resolver o problema da Argentina é muito fácil. Se todos nós parássemos de roubar por um ano, pronto, tudo estaria resolvido”, parece brincadeira, mas não é.

Depois desta pequena explanação, nos faltam duas sedes da Copa América 2011, Santa Fé e Buenos Aires.

A província de Santa Fé é, historicamente, um dos grandes focos da resistência ao poder peronista. Atualmente a província é governada por Hermes Juan Binner, oposicionista do governo Cristina Kirchner. No entanto, existe uma explicação para a escolha da cidade como uma das sedes da Copa América. O nome mais cogitado para ser vice de Cristina nas próximas eleições é o de Carlos Reutemann, ex piloto de Fórmula 1 e atual senador da província de Santa Fé. E Reutemann é natural da cidade de Santa Fé. A escolha da terra natal de Reutemann fez com que Rosario, tradicional palco do futebol argentino e uma das sedes da Copa do Mundo de 1978, ficasse fora da Copa América 2011. Rosario é a maior cidade da província de Santa Fé, tem dois times de primeira linha no futebol argentino (Rosário Central e Newell’s Old Boys), mas é controlada pelo Partido Socialista, antagônico ás idéias peronistas. Outro ponto contra Rosario, seu intendente, Miguel Lifschitz, um dos principais articuladores dos protestos ruralistas de Rosario contra o governo Cristina Kirchner.

A última sede, logicamente, é Buenos Aires. A capital federal que congrega, junto com seu entorno conurbado, 35% da população argentina e 70% dos times da primeira divisão do campeonato de futebol dos hermanos não poderia ficar de fora da Copa América, mas quase ficou. Como esperado, os portenhos receberão a final da Copa América e só, nem um joguinho a mais. Isto porque a cidade autônoma é controlada por Mauricio Macri, ex presidente do Boca e ferrenho adversário político de Cristina Kirchner. Macri é um dos fundadores do partido CPC (Compromiso para el Cambio) uma das 3 bases de sustentação da aliança PRO (Propuesta Republicana) movimento oposicionista de direita. As outras duas são o Recrear (Recrear para el Crecimiento) e a Alianza Popular Federalista. Macri é o preferido do PRO para brigar com Crsitina Kirchner nas próximas eleições presidenciais na Argentina. Em 2007 seu nome foi muito aventado para a corrida presidencial, mas acabou desistindo da disputa em virtude da morte do sindicalista Carlos Fuentealba, escândalo que envolveu Jorge Sobisch, que seria seu vice.

Como disse no início do post, nada melhor que o futebol para vencer uma eleição. A velha idéia romana do panis et circenses parece funcionar até hoje.

Imagem: Pan Con Circo

I Seminário do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa

Neste fim de semana, Belo Horizonte recebe o I Seminário do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa.

O objetivo é discutir os impactos da Copa de 2014 no Brasil e, principalmente, em BH.

Embora a grande mídia apresente a Copa como uma consolidação da estabilidade econômica no país e uma fonte de oportunidades e criação de renda para a população, megaeventos desta magnitude trazem também uma série de interferências sociais que podem culminar em um Estado de Exceção, propício a todos os desmandos e desrespeitos aos direitos humanos e sociais.

Sem falar na torneirinha de dinheiro público que jorra, jorra, sem o menor controle das autoridades que deveriam ser responsáveis pelo correto uso do erário público.

Além dos painéis de debate e dos grupos de trabalho que se formarão no Seminário, o evento terminará com um campeonato de pelada que será realizado na Praça da Estação, um dos espaços públicos de BH com uso mais questionado pela poluação no último ano.

Abaixo, a programação do I Seminário do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa.

Sexta – 13/05

18 Horas – Painel 1 – Os Megaeventos e as violações aos direitos humanos e sociais

Sábado – 14/05

9 Horas – Painel 2 – A Cidade de Exceção e a Copa do Mundo

11 Horas – Painel 3 – Mobilidade Urbana pra quem?

14 – HorasGrupos de Trabalho

18 Horas – Painel 4 – Impactos de economia e urbanística decorrentes da realização do Mundial da Fifa no Brasil

Local dos painéis e dos grupos de trabalho: Auditório da Faculdade de Direito da UFMG (avenida João Pinheiro, 100, centro de Belo Horizonte).

Domingo – 15/05

Copelada – Campeonato de Pelada (inscrições às 15 horas e início dos jogos às 16 horas).

Local do Copelada: Praça da Estação, centro de Belo Horizonte.

O Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014 é composto por pessoas de diversos setores da sociedade e busca discutir e entender os processos para a realização da Copa do Mundo de 2014. O objetivo do coletivo é fiscalizar e pressionar as autoridades quanto à utilização do dinheiro público na Copa, assim como o usofruto dos benefícios do evento por parte das cidades e suas populações.

Pra quem curte o tema, o Ópio do Povo tem a campanha 2014 – Eu não quero pagar a conta, participe!

Imagens: Comitê Popular dos Atingidos Pela Copa – BH

Quem é que ganha? Os dissidentes têm que explicar

Sair do Clube dos 13 é legítimo. É uma entidade de classe e caso um clube não se sinta devidamente representado e defendido, melhor sair mesmo.

Mas como disse o presidente do Galo, Alexandre Kalil, o estranho é querer sair quando o dinheiros está sendo posto à mesa.

Que Flamengo e Corinthians queiram negociar seus direitos separadamente, tudo bem. Os dois times são verdadeiras nações e comercialmente é aceitável que estajam um patamar acima, embora a hora escolhida pra saída seja a pior possível. E eu duvido muito que consigam chegar a valores superiores ao que receberiam junto ao Clube dos 13.

Hoje, tanto Flamengo e Corinthians recebem cerca de 42 milhões de reais pelo total de suas transmissões, contando aí todas as plataformas. Vamos fazer algumas contas rápidas. Os dois juntos são responsáveis por um sexto do total do bolo do Clube dos 13. A licitação pra TV aberta prevê um lance mínimo de 500 milhões de reais e partindo deste número, tanto Corinthians como Flamengo receberiam cerca de 41,6 milhões de reais, só pela TV aberta. Se pensarmos que a proposta vencedora ficará em torno dos 700 milhões, a arrecadação dos dois clubes de maior torcida no Brasil subiria pra 58,33 milhões de reais para cada um deles.

Nos bastidores, o rumor é que, pra que não houvesse chance de derrota, antes da saída da Globo da disputa a Rede Record ofereceria 1 bilhão de reais pela transmissão do Brasileirão na TV aberta, o que levaria cerca de 83,3 milhões de reais para os cofres corinthianos e flamenguistas. E cá pra nós, separadamente é quase impossível chegar a estes valores contando apenas a TV aberta.

Mas como disse anteriormente, pra Corinthians e Flamengo a idéia da independência ainda é aceitável.

Mas o Botafogo? O Coritiba? O Goiás? Aí estão de brincadeira.

Uma coisa é certa, o racha entre os times e o Clube dos 13 tem um único efeito prático e visível, a desvalorização do produto, o nosso surrado futebol nacional.

E como se explica que Cartolas desvalorizem seu próprio produto, justo na hora em que ele receberia um polpudo incremento em seu valor? Alguém tem que estar ganhando por isso e não é o futebol brasileiro.

E fica difícil não pensar que estes ganhos estão vindo por baixo dos panos.

Favores aos clubes, empréstimos, estádios na Copa 2014 ou até mesmo dinheiro vivo na mão da cartolagem? Eu não sei especificar quais os ganhos dos dissidentes, mas o que sei é que eles têm que se explicar.

E aí, quem é que ganha? E como ganha? O torcedor brasileiro espera respostas.

Imagem: Zóio Torto

O estupro do CADE e os donos do país

Desde criança ouço dizer que a Globo é a dona do Brasil. Manda prender, soltar, legisla e revoga leis, tudo a seu bel prazer.

Muito de verdade, um pouco de exagero, não é essa a questão que discutiremos aqui.

No ano passado o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu os olhos para um dos monopólios mais antigos e sólidos do país, o das transmissões do Campeonato Brasileiro de Futebol.

E não se engane com as transmissões da Band, o que temos aqui é sim um monopólio. Há 24 anos o direito de transmissão do Brasileirão pertence à Rede Globo e a Band só passa alguns jogos porque não incomoda, uma espécie de esmola da emissora do Jardim Botânico e também uma forma de dizer, aqui não tem monopólio. Mas legalmente os direitos pertencem à Globo e o que acontece no caso da Band é uma cessão, nada mais que isto.

Então o CADE disse não e determinou que se abrisse a concorrência para a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Todo mundo sorriu – um pouco constrangido, é verdade – mas a decisão da autarquia federal foi respeitada e, através do Clube dos 13, foi criada uma licitação com cinco módulos diferentes, TV aberta, fechada, internacional (que é onde se pode ganhar muita grana), internet e celular.

Na questão da TV aberta, a Globo teria uma pequena vantagem em relação aos concorrentes que teriam que pagar 10% a mais que a emissora do Jardim Botânico para ficar com o Brasileirão, um brinde pra quem foi parceira nestes últimos 24 anos. E até aí tudo bem.

Só que aos poucos a turma do Plim Plim viu que os 10% de lambuja de nada adiantariam porque, pelas conversas de bastidores, a proposta da Record chegaria a impressionantes 1 bilhão de reais, valor o que impossibilitaria a concorrência global e que levaria o futebol brasileiro a outro patamar. Pra se ter uma idéia, a principal plataforma de transmissão do Campeonato Italiano paga aos clubes do Calcio o equivalente a 600 milhões de reais, 40% menos do que o Brasileirão arrecadaria só com a TV aberta.

Então o que fizeram os donos do país? Tentaram melar a licitação. Primeiro cooptaram alguns clubes, encabeçados pelos 4 do Rio, a fim de que estes rachassem com o Clube dos 13, que é quem comanda as negociações nos moldes do CADE. Os clubes se amotinaram e disseram que deixariam o Clube dos 13. Mas depois, alguns empecilhos legais fizeram com que voltassem atrás e declarassem que permaneceriam junto à entidade, embora mantivessem a negociação com as TV’s de forma independente.

Ontem veio mais uma cartada da Globo, que comunicou oficialmente que não entrará na disputa da licitação e que vai negociar separadamente com os clubes. Um verdadeiro estupro do CADE.

A guerra ainda não acabou. Na próxima terça o presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, e seu diretor administrativo, Ataíde Gil Guerreiro, terão uma audiência no CADE. Eles serão recebidos pelo presidente da autarquia, Fernando Furlan, e pelo procurador geral do Conselho, Gilvandro Vasconcelos Coelho de Araújo.

O CADE tem que se impor e mostrar sua força como uma autarquia federal legítima e atuante, punindo aqueles que querem passar por cima de sua decisão e mostrando aos poderosos que o país não tem dono, mas leis, e que estas devem ser respeitadas.

Aguardemos o próximo capítulo.

Imagem: TV e Diversão