Copa América Peronista

Nada melhor que o futebol para vencer uma eleição.

E disto sabe bem Cristina Kirchner.

Em 2009, a presidenta da Argentina aproveitou o imbróglio entre AFA e TyC Sports para comprar os direitos de transmissão do campeonato argentino de futebol para a TV Pública, o famoso Canal 7.

O acordo foi fechado em 600 milhões de pesos, o Governo acabou pagando 900 e arrecadando apenas 6 milhões de dólares com a publicidade nas transmissões das partidas. Mas a presidenta não pareceu se importar com o déficit monstruoso, afinal, o futebol é do povo! Sem falar nas inúmeras propagandas estatais durante os jogos que versam sobre as grandes obras e os vanços de sua administração, ou seja, na ótica peronista do Partido Justicialista, acabou sendo um bom negócio.

Outro grande negócio é a Copa América. A 43ª edição do torneio acontecerá na Argentina e terá início no dia 1º de julho, meses antes das eleições presidenciais dos nossos vizinhos.

Serão 8 sedes, 6 delas capitais de províncias comandadas pelo Partido Justicialista ( o mesmo da presidenta Cristina Kirchner, partido detentor do legado Peronista) ou por seus aliados peronistas. São elas:

Córdoba – Capital da província homônima, governada por Juan Schiaretti, do UpC (Unión por Córdoba), aliado do governo central. Schiaretti vem de uma corrente radical do peronismo de esquerda, viveu exilado em Belo Horizonte durante a ditadura Videla e, na capital mineira, chegou ao cargo de vice diretor administrativo da Fiat.

La Plata – Capital da província de Buenos Aires, governada por Daniel Scioli, da Frente para la Victoria, aliança de partidos de orientação peronista. Scioli é um ex esportista (piloto de lanchas, chegou a ser vice campeão mundial de Motonáutica) e foi vice presidente no mandato de Néstor Kirchner, o ex marido e predecessor de Cristina no governo central do país.

Mendoza – Capital da província homônima, governada por Celso Jaque, do Partido Justicialista. Jaque tem mais de 25 anos na militância peronista.

Salta – Capital da província homônima, governada por Juan Manuel Urtubey. O governador tem suas raízes políticas fincadas no Peronismo e no Partido Justicialista, mas se elegeu através da aliança entre a Frente para la Victoria e o PRS (Partido Renovador de Salta), considerado um dos mais radicais entre os partidos de extrema direita Argentina.

San Juan –  Capital da província homônima, governada por José Luis Gioja, do Partido Justicialista. Gioja é um dos ícones do chamado Kirchnerismo, a vertente recauchutada do velho peronismo.

San Salvador de Jujuy – Capital da província de Jujuy, governada por Walter Barrionuevo, do Partido Justicialista. Barrionuevo fez parte do Governo Menem e foi nesta época que cunhou uma das maiores pérolas da história da política alvi celeste: “Resolver o problema da Argentina é muito fácil. Se todos nós parássemos de roubar por um ano, pronto, tudo estaria resolvido”, parece brincadeira, mas não é.

Depois desta pequena explanação, nos faltam duas sedes da Copa América 2011, Santa Fé e Buenos Aires.

A província de Santa Fé é, historicamente, um dos grandes focos da resistência ao poder peronista. Atualmente a província é governada por Hermes Juan Binner, oposicionista do governo Cristina Kirchner. No entanto, existe uma explicação para a escolha da cidade como uma das sedes da Copa América. O nome mais cogitado para ser vice de Cristina nas próximas eleições é o de Carlos Reutemann, ex piloto de Fórmula 1 e atual senador da província de Santa Fé. E Reutemann é natural da cidade de Santa Fé. A escolha da terra natal de Reutemann fez com que Rosario, tradicional palco do futebol argentino e uma das sedes da Copa do Mundo de 1978, ficasse fora da Copa América 2011. Rosario é a maior cidade da província de Santa Fé, tem dois times de primeira linha no futebol argentino (Rosário Central e Newell’s Old Boys), mas é controlada pelo Partido Socialista, antagônico ás idéias peronistas. Outro ponto contra Rosario, seu intendente, Miguel Lifschitz, um dos principais articuladores dos protestos ruralistas de Rosario contra o governo Cristina Kirchner.

A última sede, logicamente, é Buenos Aires. A capital federal que congrega, junto com seu entorno conurbado, 35% da população argentina e 70% dos times da primeira divisão do campeonato de futebol dos hermanos não poderia ficar de fora da Copa América, mas quase ficou. Como esperado, os portenhos receberão a final da Copa América e só, nem um joguinho a mais. Isto porque a cidade autônoma é controlada por Mauricio Macri, ex presidente do Boca e ferrenho adversário político de Cristina Kirchner. Macri é um dos fundadores do partido CPC (Compromiso para el Cambio) uma das 3 bases de sustentação da aliança PRO (Propuesta Republicana) movimento oposicionista de direita. As outras duas são o Recrear (Recrear para el Crecimiento) e a Alianza Popular Federalista. Macri é o preferido do PRO para brigar com Crsitina Kirchner nas próximas eleições presidenciais na Argentina. Em 2007 seu nome foi muito aventado para a corrida presidencial, mas acabou desistindo da disputa em virtude da morte do sindicalista Carlos Fuentealba, escândalo que envolveu Jorge Sobisch, que seria seu vice.

Como disse no início do post, nada melhor que o futebol para vencer uma eleição. A velha idéia romana do panis et circenses parece funcionar até hoje.

Imagem: Pan Con Circo

Reconciliação

Este foi o primeiro gol de Messi sob o comando de Diego Maradona. A narração é do histórico e folclório Victor Hugo Morales, o mesmo que narrou com puro sentimento de pós guerra os gols de Diego contra a Inglaterra, na copa do México em 86.

No primeiro gol Morales diz, em um tom carregado de satisfação, que a Argentina vence por 1X0, com um gol de mão, o que querem que eu diga?

No segundo, o emocionado narrador chega a agradecer a Deus pelo futebol, por Maradona. E inocentemente chama o craque de barrilzinho cósmico.

Não escondo de ninguém o quanto torço para que a aventura maradoniana na alviceleste dê certo. Neste blog mesmo já manifestei meu desejo, afinal, é o melhor jogador que minha geração viu jogar, os brasileirinhos aceitando ou não. Mas vai além da vontade, sigo afirmando que existem alguns argumentos pra lá de plausíveis de que a experiência pode render bons frutos.

Diego é o único capaz de fazer os argentinos perderem sua conhecida soberba. A arrogância que talvez explique tão poucas copas na prateleira mesmo com tantos craques desfilando pelos campos do mundo ao longo destes quase 80 anos de mundiais.

Com Maradona no comando os jogadores, outrora tão blazés, tão pedantes, se jogam de cabeça nos pés dos adversários, suam sangue, deixam tudo

O 10 foi contratado pra recuperar a mística da azul e branca. Pra recuperar o prestígio e o respeito de uma das escolas mais importantes do futebol mundial. E pra ensinar à nova safra que no futebol também é possível se jogar por uma causa.

O jogo contra a França não valia copa do mundo, não valia nada, era simplesmente um amistoso. Mas o time argentino jogou como se fosse uma final. Final de copa, de champions, de campeonato de pelada na Villa Fiorito.

E se a vitória não rendeu taça nem ao menos 3 pontinhos, valeu pelo menos para o treinador. A estréia foi contra a fraquíssima Escócia, então a França era o batismo de verdade. Quem sabe agora as chacotas não cessam?  

Independente das piadas, a verdade é que qualquer time que tenha um ataque com Messi, Aguero e Tévez deve ser respeitado, e muito. É um trio de dar inveja aos grandes esquadrões do futebol mundial, ao Manchester, ao Barça, à qualquer seleção, até a nossa. Ou você não gostaria que os 3 fossem brasileiros?

Hoje vi França X Argentina torcendo de verdade. Torcendo como se fosse um jogo do Galo, torcendo bem mais que torci na terça. Foi a primeira vez, depois que voltei ao Brasil, que me permiti torcer pela Argentina.  Quando lá estava isto era impossível.

Mas hoje, passado mais de um ano do meu regresso, permito-me reatar esta pequena parte, adormecida em meio às lágrimas vertidas na bacia platina. Sem sentimentos piegas, sem eximir minhas divergências ao sonho europeu que vive Buenos Aires, sem esquecer minhas reticências sobre a pseudo politização de seu povo, sobre a falsa roupagem de cultura que esconde a verdadeira cara argentina, a cara de Carlitos, a cara do povo.

Ainda com todos estes poréns, hoje me reconciliei com um dos meus amores mais antigos, o futebol argentino. O mesmo futebol que me encantou na vitória de 86 e na derrota de 94. O futebol que me apresentou os compassos descontrolados de Piazzola, as narrativas fantásticas de Cortázar, os olhos arregalados e assustados de Spilimbergo. A classe imperturbável de Redondo, a genialidade delirante de Maradona.

O futebol argentino que eu nego, ou melhor, que nos últimos 3 anos tanto neguei, mas que hoje eu confesso… o futebol que voltei a amar.