Princípios, valores e o Barça campeão

barcelona campeao da uefa champions league 08 09

Em um mundo onde o que vale é ganhar a qualquer custo, o Barcelona insiste em ser leal a seus princípios. Resistência pura de quem teima em ser diferente. Não pela diferença, mas por não querer trair seus valores fundamentais.

Esta é a essência do Barça e não é a toa que seu lema é Mais que um clube. Não há exageros ou hipérboles na frase, o Barça é bem mais que um clube, é uma bandeira da Catalunha, da contracultura e da resistência.

Tenho um amigo catalão que diz que se você – de uma forma ou de outra – apóia ou admira a resistência às imposições, sejam elas culturais, sociais, econômicas ou de qualquer outra porra, você tem que torcer para o Barça

Na época em que a Espanha não podia sorrir, o Barcelona foi perseguido e seu estádio era o grande palco da resistência à ditadura franquista; o único lugar em território espanhol onde podia-se falar, gritar, cantar e xingar em sua língua materna, o catalão, então proibido no país. No país Basco, outro foco anti Franco, o estádio San Mamés do Athletic Bilbao desempenhava o mesmo papel do Camp Nou.

Voltando ao futebol, onde o que vale também é vencer a qualquer custo, o Barcelona se mantém firme em seus princípios, em seus valores. Quer ganhar como qualquer time, mas como não é um qualquer, prefere ganhar ovacionado por seus fãs e até mesmo pelos rivais. No futebol competição o Barcelona não desiste de ser arte, de ser verso de César Vallejo. Joga bonito por prazer, joga bonito por que que vencer assim, com poesia.

Aqui temos uma imagem que o Barça é um time milionário, destes Chelsea ou Real Madrid que despejam dinheiro e sabão no mercado internacional. O Barcelona é rico sim, sem dúvidas. Mas é muito diferente destes outros. O dinheiro serve pra trazer Daniel Alves e Henry no auge de suas formas. Mas o time catalão carrega um orgulho imaculado por suas divisões de base

Na final da Champions de ontem, 7 dos 11 titulares foram formados em casa. Víctor Valdés, Gerard Piqué, Xavi Hernandéz, Andrés Iniesta, Sergi Busquets, Carles Puyol e Lionel Messi. Orgulho catalão! Ainda mais que com a exceção do argentino fantástico, os outros 6 são da terra protegida por São Jorge

Leal a sua excência, fiel a sua história. E o Barça segue firme e forte! Reensinando ao universo da bola que aquele que joga bonito também pode ganhar. E mostrando ao mundo que para ter sucesso não é necessário se esquecer de princípios, assim como não é preciso passar por cima de seus valores e estipular um preço, pra tudo.

Barça campeão!!!

Imagem original: Sítio do Barça
Efeitos: Picnik

O Garrincha da Música

geniosmarginais2Há exatos 66 anos nascia em Seattle, Estados Unidos, Johnny Allen Hendrix.

O menino pobre do subúrbio foi posteriormente renomeado como James Marshall Hendrix, mas o mundo o conheceria por um terceiro nome.

Jimi Hendrix é considerado por muitos o maior guitarrista de todos os tempos. Eu não entrarei neste mérito pois tenho uma séria dificuldade com este tipo de expressão e sinceramente não sei mensurar qual foi o maior guitarrista de todos os tempos.

Sei que Hendrix é meu favorito e pra mim isso basta.

Outra coisa que sei e que me dá pena, ou bronca, é que hoje Hendrix seja mais lembrado por sua irreverência e loucura que por sua música. Que seja colocado no mesmo saco que vários da geração Woodstock, apenas mais um hippie louco capaz de destruir instrumentos no palco ou tocar guitarra com a língua.

Não, ele era muito mais que isso.

Jimi Hendrix era um virtuoso na essência da palavra. Dominava seu instrumento, suas notas. Conseguia abusar dos experimentalismos sem macular o processo melódico.

Hendrix foi um músico de vanguarda, muito além de seu tempo ou até mesmo dos dias de hoje. Capaz de arranjos improváveis como em Crosstown Traffic e sensível o suficiente para criar Little Wing, uma jóia em termos de harmonia e melodia.

Inovador, brincava de múscia e nessa brincadeira criou e aperfeiçoou dezenas de equipamentos e efeitos sonoros até hoje utilizados no universo pop.

Jimi mudou a história da música popular, do rock, da guitarra. Inovou nas formas de tocar, fazer e pensar música.

No entanto, para a grande maioria, continua a ser o doidão que tocava muito e quebrava guitarras, o maluco dos ácidos na testa.

Poucos são capazes de ver o ritual Yorubá na performance em que Hendrix queima sua guitarra no lendário Festival de Monterey, na Califórnia. Trazendo para um contexto mais superficial, ainda poucos são os que reconhecem o verdadeiro valor musical de Jimi Hendrix e sua importância na história da música pop. Sua genialidade que vai muito além de sua incomparável técnica.

Por isso Hendrix me lembra Garrincha. O ponta direita do Botafogo era um monstro inigualável. E no entanto o que vemos hoje é, em quase todos os casos, uma representação do Garrincha folclórico, driblador irresponsável, mulherengo e beberrão. Quase não se fala da eficiência de Garrincha, bi campeão do mundo, artilheiro de Copa

O Anjo das Pernas Tortas jogava, vencia e encantava. E fazia tudo isso brincando.

Hendrix e Garrincha são gênios rotulados em papéis folclóricos que escondem suas verdadeiras relevâncias no meio em que atuaram. Não tiveram a mesma sorte que van Gogh. Mesmo cortando a própria orelha o holandês não teve – para a história – sua genialidade ofuscada por sua loucura.

Jimi Hendrix e Garrincha são os gênio marginais, no sentido etmológico da palavra. São os fodas, os foras de sério que tiveram que ser colocados de lado por não cumprirem com as exigências oficiosas, por não entrarem no padrão.

Para Ouvir: Little Wing – Jimi Hendrix