Derrota real, vexame galáctico

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O futebol, como o mundo, vive a dicotomia da segregação econômica. Como na sociedade temos cidadãos de classes A, B e por aí vai, o mundo da bola também vive suas divisões e estratificações sob a tutela do vil metal; com times milionários e equipes semi amadoras que habitam e dividem o mesmo terreno.

Na última terça os galácticos do Real visitaram o subúrbio de Madrid. Foram ao município de Alcorcón – a 13 quilômetros da capital espanhola – enfrentar, pela Copa do Rei,  a equipe local que joga na 3ª divisão do campeonato espanhol e que leva o mesmo nome da cidade em que está situada. Um confronto entre o futebol real – não de realeza, mas de realidade – e o mundo fantástico e fantasioso da bola galáctica, das estrelas que brilham mais que a camisa, que a história.

Mesmo sem Kaká e Cristiano Ronaldo – estrelas máximas da constelação madrilenha – todos decretavam a barbada, goleada merengue… e com um pé nas costas. Mas no futebol, diferentemente da nossa sociedade do hiper consumo, nem sempre o dinheiro consegue ser o vitorioso.

Foi um dos maiores vexames da história do Real Madrid. 4 X 0 para um time da 3ª divisão… um time de estádio acanhado e de uma paupérrima galeria de troféus, sem nenhum título de relevância. Um time de jogadores modestos… jogadores modestos sim, mas que suam, que brigam, que jogam quase por amor ao esporte, pois o que ganham não é mais que o necessário para sobreviver.

4 X 0 com uma doce ironia. 3 dos 4 gols foram marcados por jogadores que passaram pelas divisões de base do time merengue, mas que nunca tiveram oportunidade no time de cima. O meia Ernesto Gómez que anotou o 3º tento da goleada e o atacante Borja Pérez, autor do primeiro e do último gol no massacre de Alcorcón. Detalhe, Borja já havia marcado outras 4 vezes contra o Real Madrid jogando pelos pequenos Leganés e Alicante. O outro gol da partida foi contra de Arbeloa, uma das contratações para a atual temporada.

Nem o mais otimista dos torcedores do AD Alcorcón poderia imaginar a noite de ontem. O dia em que a simplicidade do subúrbio venceu o poder e a ostentação capitalina.

A humilhante derrota imposta ao Real mostra muito mais que a pilhéria do futebol onde nem sempre os que compõem a base da pirâmide estão necessariamente abaixo daqueles que habitam o topo. A goleada do Alcorcón expõe a mentira galáctica dos astros milionários da bola e ratifica a idéia de que, hoje, não existe time de outro mundo.

Que o Real Madrid tem grandes craques é inegável. Mas ainda falta muito pra que estes jogadores formem um grande time.

Imagem: Ecodiario
Canal do Youtube: Todo Goles
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O maior espetáculo da Terra

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O Barcelona da temporada 2008/2009 vence, convence e, acima de tudo, encanta.

Para os amantes do futebol é no momento o maior espetáculo da Terra.

O ano começou com muitas desconfianças em cima do clube. Um elenco refeito depois do racha na temporada anterior, a dispensa de nomes consagrados como Deco, Thuram e Ronaldinho Gaúcho. E o início de trabalho de um novo treinador, Josep Guardiola, que trazia resultados nada animadores do time B.

Pra aumentar a desconfiança, derrota para o pequeno Numancia na primeira partida oficial da temporada. Derrota que foi seguida de empate contra o modesto Racing Santander em pleno Camp Nou. Parecia que seria mais um ano conturbado, mais um ano sem títulos.

Parecia, porque estes seis meses foram tempos de sonhos para o torcedor azul e grená. Depois do empate com o Racing, o Barça  só perdeu pontos no campeonato espanhol na 12ª rodada quando empatou em casa com o Getafe. Foram 16 vitórias em 17 partidas.

Esta sequência impressionante rendeu ao time catalão o título simbólico do primeiro turno com 50 pontos em 57 possíveis, o que dá 87,71% de aproveitamento. Seus perseguidores mais cercanos, Real Madrid e Sevilha, estão 12 pontos atrás.

Em toda temporada foram, até aqui, 37 partidas. 31 vitórias, 3 empates e só 3 derrotas. Sendo que duas eram em jogos que não valiam nada ou quase nada. 1X0 pro Wisla Cracóvia no jogo de volta da fase prévia da Champions, no jogo de ida o Barça venceu por 4X0. E 2X3 para o Shaktar na última rodada da fase de grupos do torneio europeu, quando o Barcelona já havia garantido a classificação e o primeiro lugar do grupo.

Mas se as 31 vitórias impressionam os números do ataque catalão são mais contundentes ainda. Nestes 37 jogos o Barça balançou as redes adversárias 115 vezes, média de 3,108 gols por partida. Em 7 oportunidades o time de Guardiola marcou 5 ou 6 gols, a última neste fim de semana, 5Xo contra o Deportivo La Coruña. Uma máquina de golear.

No campeonato espanhol só o tridente ofensivo (Messi, Eto´o e Henry) marcou 41 vezes, o mesmo número de gols de todo Real Madrid (3º ataque da liga) e 1 a menos que o Atlético de Madrid (2º ataque do campeonato).

Sem dúvida o Barça pinta como grande time da temporada européia. Um time leve e envolvente, de toque de bola fino e vistoso. Um time que brinca de jogar futebol e mesmo brincando conseguiu equilibrar sua ofensividade nata com uma defesa sólida e segura.

O Tradicional Futebol Tic-Tac

O Barcelona desta temporada voltou a origem de sua escola futebolistica, famosa pelo refinado estilo, intensa movimentação e as intermináveis troca de passes que no passado lhe renderam a denominação de Fútbol Tic-Tac. Nosso famos um-dois

O meio de campo leve, rápido e habilidoso formado por Keita, Xavi e Iniesta é o suporte para o sucesso do Tic-Tac. E seus suplentes  – Yaya Touré, Sérgio Busquets, Gudjohnsen e Hleb garantem que a característica seja preservada mesmo com o rodízio do elenco.

Os Recuperados

Na caça às bruxas do fim da temporada passada quase sobrou para Tierry Henry e Samuel Eto´o. Segundo declarações dos dirigentes do Barça, o francês não havia correspondido às expectativas e ao alto investimento feito nele e o camaronês já havia terminado seu ciclo no clube, aliás, ciclo pra lá de turbulento.

Mas para a sorte da torcida barcelonista os dois permaneceram. Juntos eles já fizeram 41 gols. 27 de Eto´o, artilheiro do time na temporada, e outros 14 de Henry, que a partir de outubro voltou a lembrar o impiedoso e clássico jogador do Arsenal.

As novas caras

Das contratações para a atual temporada, 3 jogadores assumiram posições de titulares e têm conseguido destaque. O zagueiro Piqué, formado nas divisões de base do clube, voltou ao Barcelona depois de alguns anos na Inglaterra. O jovem jogador vem mostrando muita segurança e forma a zaga com o capitão Carles Puyol.

O meio campista de Mali,  Seidou Keita, contratado junto ao Sevilha trouxe mais solidez ao meio campo azul e grená. Além de ótimo marcador Keitá também chega a frente e as vezes até faz seus golzinhos, é perigoso na bola aérea.

Mas nenhuma das contratações deu tão certo como o lateral Daniel Alves, também contratado junto ao Sevilha. O baiano, que é considerado por muitos o melhor lateral direito do mundo, mostrou personalidade para assumir a posição, antigo problema do time catalão. Com seus potentes chutes e seus cruzamentos precisos, Dani Alves já conquistou a torcida e o técnico Josep Guardiola que declarou esta semana que o lateral é fundamental em seu esquema tático.

A pulga que faz a diferença

messi la pulga

Mas quem está comendo a bola, fazendo mesmo a diferença é o argentino Lionel Messi. A pulguinha já marcou 25 gols nesta primeira metade da temporada. Mas muito mais que pelos gols, Messi tem encantado catalães, espanhóis, argentinos e demais amantes da bola pelo mundo afora pela magia que ele traz aos gramados. Ele é de longe o jogador que eu mais gosto de ver jogar. Driblador, atrevido e agora goleador. 

Messi faz lembrar uma criança brincando de bola. Jogando futebol não, brincando… de bola. Só quer saber de driblar, de atacar, de fazer gols e malabarismos fantásticos. Arte pura de moleque. O franzino menino de 1,69 m e 63 kg assumiu logo a camisa 10 deixada por Ronaldinho Gaúcho. E rapidamente fez a torcida se esquecer completamente do antigo ídolo.

Messi é um dos jogadores mais rápidos e hablidosos do futebol mundial. Juntando-se a estas características sua descomunal velocidade para trocar de direção na corrida, o argentino se torna um jogador quase imarcável. Ultimamente nem as botinadas têm sido capazes de pará-lo.

Nestes últimos seis meses ninguém, na Europa ou em qualquer outra parte do mundo, jogou mais que Messi. Assim como nenhum outro time chegou ao menos perto do que mostrou o Barça.

Para ver toda lista de jogos do Barcelona nesta temporada clique aqui.

∞ No levantamento feito pelo blog não foi considerada a partida contra o Sant Andreu pelas semifinais da Copa da Catalunha. Porque o Barça disputa a competição com o Barcelona Atlètic, espécie de time B que é dirigido pelo ex jogador Luis Enrique.