Adjetivando o substantivo

Não se trata de aula de gramática, o assunto é futebol, mais precisamente Lionel Messi.

Há quase 4 meses eu não escrevia no Ópio, mas hoje não pude me calar, não depois do que vi o argentino fazer no Camp Nou.

4 gols que o igualam a Rivaldo, maior artilheiro azul e grená em competições européias. 4 gols que o tornaram o 8º maior artilheiro em jogos oficiais de toda história do Barça, deixando pra trás duas lendas, o búlgaro Hristo Stoichkov e o catalão Josep Escolá, mito dos anos 30 e 40 do século passado.

Aqui no Ópio já chamei Messi de gênio, craque, monstro e até Deus um dia ousei. Mas confesso que hoje me faltam palavras, me faltam adjetivos.

Os adjetivos não se enquadram mais a Messi, não há o que dizer. Somente o som cru das palmas se chocando, do coração palpitando a cada drible, a cada passe, a cada gol.

Messi não pode mais ser chamado de craque, de gênio, de monstro. Como seus compatriotas Piazzolla, Borges e Cortázar, ele extrapolou… tornou-se maior que sua própria arte, maior que qualquer adjetivo.

Messi é o melhor, é simplesmente Messi.

Caricatura: André Fidusi

Sempre Laerte!

Mais uma dica do Cas do Canta Cantos.

Laerte dispensa comentários… é sem dúvida alguma um dos grandes cartunistas de nossa história. Criou entre outros fantásticos personagens, Hugo, Overman e Deus, ele mesmo, o todo poderoso.

Então pra não tomar mais o tempo de vocês, aí vai a tirinha enviada pelo Cas.

E só pra constar, a Casa do Minotauro – o blog das tiras diárias do Laerte – tá em novo endereço! Clique aqui e se divirta!

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Quando Deus te olha de perto…

A Cultura Católica se baseia na doutrina do medo.

Nascemos pecadores, culpados. E crescemos sob o julgamento de uma divindade irada.

Deus de dilúvios e pragas. Sempre pronto a punir, a castigar.

Um Deus controlador e egocêntrico, capaz de jogar o próprio filho aos leões só para provar que estava certo. Impiedoso.

E assim floresceu e cresceu a civilização católica. Temente, obediente. E mesmo assim vez ou outra castigada.

Quando Maradona foi anunciado como novo treinador da Seleção Argentina de Futebol choveram críticas e pedradas. O próprio Ópio do Povo deu sua cutucada, dizendo sentir um cheiro de tango e tragédia no ar.

Mas uma coisa os críticos se esqueceram de levar em conta. O anúncio de Maradona como treinador da Alvi-Celeste vai muito além do folclore que, daqui, podemos ver.

Colocá-lo no cargo de treinador da seleção nacional é uma tentativa de resgate daquilo que todos nós, brasileiros, reclamamos em nosso escrete canarinho. Amor à camisa.

O eterno 10 não é simplesmente um baixinho destemperado e polêmico, para os hermanos Maradona é Deus. E que não venham aqui criticar a postura do povo argentino porque cada um acredita em seu Deus como ele é.

Divindades com cabeças de elefantes, raposas, Deuses etéreos e sem corpos, tudo isso e muito mais é cultuado mundo afora. Então por que Maradona não pode ser Deus? Nem que seja pra alguns poucos loucos – espalhados pela Argentina, pelo sul da Itália ou pelo Reino Unido resistente ao Império da Rainha – ele pode.

E para os jogadores argentinos Maradona é mesmo um Deus.

A geração de Riquelme viu a Copa de 86. E viu com olhos infantis, tão propícios a criação de Deuses e Heróis. Esses jogadores que – para cima ou para baixo – beiram os 30 anos acompanharam as diabruras de Maradona no México e em Nápoles. E com certeza não se esqueceram do 10, nem de la Mano de Dios.

Já a geração de Messi, Aguero e Gago não viu Maradona em seu auge. Eles cresceram ouvindo as histórias de Diego e puderam ver o último suspiro do gênio, o mundial de 94. Crianças, também puderam construir o mito do Diego imbatível, derrubado apenas pelos engravatados da Fifa.

Maradona, como um Deus, já cobrou de seus rebentos: Vocês terão que jogar pelo país e por mim! E todos responderam afirmativamente.

Nos poucos treinamentos desta semana notou-se um brilho de fascínio e admiração nos olhos dos jogadores argentinos. Eles não olham Maradona como um treinador, como um comum. Diego é mesmo Deus.

A Federação Argentina busca com Maradona resgatar o velho e esquecido amor à camisa. É a tentativa de despertar interesse e incutir responsabilidades em jogadores milionários, mundialmente famosos e adorados.

A idéia é que com Deus tão perto os jogadores – tementes e crentes – se doem mais, se entreguem de corpo e alma às cores da nação.

O resgate de valores perdidos e massacrados pela sociedade moderna é algo a ser louvado, mas não sei se a doutrina do medo – consagrada pelo império cristão – funciona no mundo quase pagão do futebol.

O certo é que o time argentino é o mais talentoso dos últimos tempos, aliás, é o mais talentoso do pós-Maradona.

Vamos ver se com Deus no comando todo talento poderá ser desfrutado por nós, pobres mortais.

Buena Suerte al Diez!