Se eu fosse o técnico…

Aproveitando esta semana de eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 resolvi brincar de técnico!

Iria postar aqui como ficariam as principais seleções do mundo caso eu fosse o treinador.

Pensei nas 10 melhores, mas aí meu querido Uruguai ficaria de fora… e eu não faria isto com nossos amistosos vizinhos que nos deram a garra de Obdulio Varela, a classe do príncipe Enzo Francescolio ideário político de José Artigas e as palavras mágicas de um certo Eduardo Galeano.

Então estabeleci que a brincadeira partiria dos 7 campeões mundiais. E completei com os 4 países que não alcançaram a glória máxima das Copas, mas pra mim se encontram hoje – ou pelo menos poderiam se encontrar – entre as melhores seleções do mundo.

Então aí vão os 11 melhores esquadrões nacionais da atualidade… na fantasia da minha realidade!

Alemanha (4-2-3-1)
minha_alemanhaArgentina (4-4-2)
minha_argentinaBrasil (4-1-4-1)
meu_brasil03

Costa do Marfim (4-1-4-1)
minha_costa_do_marfimCroácia (4-4-2)
minha_croacia-2 Espanha (3-2-3-2)
minha_espanhaFrança (4-4-2)
minha_françaHolanda (4-4-2)
minha_holandaInglaterra (4-4-2)
minha_inglaterra

Itália (4-3-3)
minha_italiaUruguai (4-4-2)
meu_uruguai

Imagem Estrelão: Submarino

Sem confetes nem purpurinas

confetes-purpurinas-serpentinas-carnavalSempre fui tachado de utópico por minhas convicções políticas. E quando o assunto é futebol, muitos dos meus poucos amigos me rotulam como romântico. O que, sinceramente, não concordo, embora respeite a opinião deles.

Pra mim não se trata de romantismo e utopia, mas simplesmente da forma como enxergo o mundo, como vejo as coisas. Não tenho culpa se a obra prima As Veias Abertas da América Latina me influenciou e me ensinou mais sobre a história que todos os livros didáticos da minha vida escolar juntos.

No futebol também tenho minhas preferências, minhas influências. Prefiro por exemplo o estetismo sem títulos dos times do Wenger à eficiência catedrática das equipes do contestado – mas vitorioso – Carlo Ancelotti.

Em clubes até entendo a obsessão pela vitória, mesmo que ela não precise ser acompanhada por aplausos. Mas quando tratamos de seleção, aí não!

Uma seleção joga mais ou menos 10 partidas por ano. Então me digam, faz algum sentido tirarmos os melhores jogadores de seus clubes – que pagam seus salários – pra jogarmos única e exclusivamente pra vencer? Pra mim não.

Pra mim as seleções devem servir para mostrar e ratificar o estilo de jogo de um país. A reunião dos grandes craques de uma nação com o objetivo único de jogar bola. Do jeito que o povo gosta, do jeito que o povo quer. As seleções, principalmente em países que cultuam tanto o futebol como o Brasil, deveriam constituir um traço da identidade cultural do país. E não ser uma máquina burocrática que só visa a vitória… e  o pior, a vitória a qualquer custo.

Por isto registro aqui meus parabéns à classificação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo da África do Sul. Também parabenizo o ex companheiro Dunga pelos resultados no comando do escrete canarinho, mas só por isto.

garrincha-elza_soares

A vitória sobre a Argentina foi grandiosa, histórica, disto não restam dúvidas. Mas não consigo apreciar o futebol da seleção do Dunga. Um time que se posta atrás e que é realmente fulminante nos contra ataques e letal nas bolas paradas. Mas não passa daí. Um time que – tristemente – não dribla, que não tem a cara do Brasil, do futebol brasileiro.

E até a tal solidez defensiva da seleção eu questiono. Ou será que já nos esquecemos dos vareios de bola que tomamos do Paraguai em Assunção, do Uruguai em pleno Morumbi e, principalmente, em Quito quando o Equador chutou nada mais nada menos que 39 bolas contra nossa meta. Ah se não fosse Júlio César, este sim é sólido!

Sem falar na fatídica derrota pra Venezuela, no aperto que tomamos do Canadá e do Egito e da sequência de partidas sem gols jogando em território nacional.

Por tudo isto volto parabenizar a classificação para a Copa e os resultados que, não se pode negar, são realmente ótimos.

Mas meus parabéns não levam consigo nem confetes nem purpurinas.

zangado_7_anoes grumpy_7_dwarfsZangado é um dos 7 anões da Branca de Neve e mesmo do Reino da Fantasia é o colunista especial do Ópio do Povo para assuntos da seleção brasileira.

Imagens: Novas Estações,
Papo de Homem
e Grumy Git

O país do médico de futebol

medicina esportiva o país do futebol o país do médico de futebolQue o mundo de hoje já não é o mesmo dos tempos em que nasci, isto é fato. E consumado. Assim como também é vero que as mudanças são cada vez mais velozaes e, às vezes, até imperceptíveis.

Eu nasci em 1980 e, mesmo com a seca de copas que só teve fim em 94, cresci em uma Terra conhecida e reconhecida como o País do Futebol. Do carnaval também, da corrupção, da malandragem, da hipocrisia. Mas hoje falaremos só de bola.

Os anos se passaram, vieram dois títulos mundiais, craques que ousamos comparar, ou equiparar, aos grandes monstros sagrados do futebol. E o Brasil seguia sendo o País do Futebol

Os anos 90 inseriram neste contexto a tal globalização, que finalmente aportava, de uma vez por todas, no universo da bola. Os senhores do mundo começaram a vir aqui com mais frequência para fazer a feira do futebol. Pernas baratas, parafraseando e distorcendo, um pouquinho, o ídolo Galeano. Que não confundam com Galiani, este só aparecerá no texto depois.

Janelas abertas, debandada geral. E mesmo assim seguíamos sendo o País do Futebol

De uns anos pra cá um novo elemento apareceu. Jogadores brasileiros contundidos que atuam na Europa começaram a vir ao Brasil para se recuperarem. Eu sempre desconfiei do discurso de que aqui, a estrutura de recuperação é muito melhor que a dos clubes europeus. É um discurso difícil de acreditar visto a realidade precária dos nossos clubes.

Sempre acreditei mais na teoria de que essa era uma ótima desculpa pra voltar pra casa, rever amigos e família, comer feijoada e se divertir com aquele pagodinho pavoroso. E claro, serem mimados como lá fora não são. 

Ontem Kaká anunciou que da próxima vez que se machucar tomará decisões diferentes em relação a seu tratamento. Nas entrelinhas, que não irá tratar-se mais no Milan Lab. No dia anterior, Dunga falou que o meia havia se tratado 5 semanas no Milan sem muito resultado e que, com 6 dias com a equipe médica da seleção, já estava pronto pra jogar. Kaká também foi por este lado e a diretoria milanista não gostou das declarações.

Do outro lado do Atlântico, Eduardo Galiani respondeu dizendo que o tratamento médico-fisioterápico tem uma sequência e que é lógico que Kaká tenha melhorado aqui, onde foi feita a última parte da recuperação. E acrescentou que o mesmo teria acontecido se ele tivesse ficado na Itália.

Comentando a notícia, rápido como é, do Beira Rio o PVC soltou esta na Espn Brasil:

Engraçado né, éramos  oPaís do Futebol, agora somos o País do Médico de Futebol. Todo mundo quer jogar lá e se tratar aqui.

Perfeita a colocação do Paulo Vinícius. Ainda mais depois de ver a seleção do anão ser massacrada pelo Equador (39 finalizações contra o Brasil!). Cada partida da seleção que vejo me reforça ainda mais esta verdade, não somos mais o País do Futebol. Pelo menos não do futebol arte, do futebol alegria, do jogo bonito.

O que nos resta então?

Que sejamos o país do médico, do fisiologista, do fisioterapeuta de futebol

Imagem: Buick

Entre preços e valores

kakaDesde que surgiu Kaká é tratado, indiscutivelmente, na grande mídia nacional como o queridinho do futebol brasileiro.

Estereótipo reverso do boleiro; menino de classe média, boa família, bom filho, religioso.

Mas agora o bom menino do futebol está posto à prova. E nem é por causa dos milhões de dólares doados aos pastores da igreja Renascer. Aqueles mesmos que foram presos no Estados Unidos com dinheiro não declarado e hoje respondem por processo de evasão e sonegação fiscal y otras cositas más…

Desta vez o que está em cheque não é a grana que sai do bolso de Kaká, mas a que pode entrar. Uma frase corriqueira nestes tempos corrompidos de hoje é que todo mundo tem seu preço. A questão é justamente esta, se Kaká é realmente uma exceção, um homem de valor. Ou se é apenas mais um destes comuns, destas pobres pessoas com preço e embalagem de plástico.

E não tem aqui nenhum puritanismo quanto ao dinheiro. Não vejo problema que Kaká ou qualquer outro ganhe aquilo que alguém quer lhe pagar. A coisa passa por outro lugar.

Tudo porque ainda teimo em acreditar que as ações devem convergir com as palavras.

Os xeiques do City desembarcaram na Itália com um mundo de dinheiro e o Milan bambeou. Kaká foi correndo à TV do clube dizer que não se interessava pela proposta, que queria envelhecer no rossonero e, um dia, ser capitão do time.

Louvável! Kaká sabe que tem todo dinheiro que precisa hoje e que o terá amanhã. Também sabe que seus filhos, netos e por aí vai não precisarão se preocupar com isso. Da mesma forma ele sabe de seu potencial, sabe que tem tudo para cravar seu nome difinitavamente na história do Milan, da Seleção Brasileira e até do futebol.

E sabe ainda que o City – nem com todo dinheiro advindo do petróleo e do sofrimento de um povo – não se compara ao Milan. Assim como o Chelsea com todo o dinheiro sujo do senhor Abramovic não se compara em grandeza e importância ao Liverpool ou ao Manchester United, para me ater à rivais domésticos.

Mas as propostas e as notícias foram mudando. Os 250 mil dólares, viraram 350 mil, depois viraram libras e os rumores chegam a números que nem ouso citar. A proposta foi recheada por mansões, viagens no jato real pra ver a família, festas, boa vida. Daqui a pouco o xeique Mansour bin Zayed vai oferecer um pedaço da lua ou mesmo de Dubai.

E ao que parece Kaká também balançou. Em determinado momento da tarde o sítio Arabian Business – que tem ligação com o presidente do clube inglês – divulgou em sua página que o City havia fechado com o meia. Mas meia hora depois teve substituir a matéria por uma outra que dizia que Kaká pedia 20% a mais para assinar.

O certo é que o jogador está em negociações. Mesmo depois do discurso de que quer ser um Maldini, que quer ser velhinho com a bengala rubronegra.

Como já disse, acho que Kaká tem todo direito de jogar onde queira e de receber quanto queiram pagá-lo. Mas não consigo ignorar e aceitar as divergências entre discurso e ação. A atitude me fez lembrar de um pequeno e delicioso texto de Eduardo Galeano que se chama Celebração das bodas da  palavra e da ação.  Nele o escritor uruguaio confessa pensar que grande parte da força de Che Guevara provinha de um feito muito simples; dizia o que pensava, fazia o que dizia. Sinceramente não sei se a força do Che vinha desta postura, mas sei que concordo inteiramente com ela.

Por isto acho que o simples fato de negociar com o City depois de reafirmar seu amor pelo Milan não pega bem. E também é por isto que caso hoje, amanhã ou depois, eu veja o Kaká com a camisa azul celeste não vou me assustar, não vou estranhar.

E terei a certeza que ele é mais um como aqueles que eu falava lá em cima, um daqueles que preferem os preços aos valores.

Falou e Disse

Existem aqueles que dizem que o futebol é o Ópio do Povo porque ele incentiva a passividade, você apenas vê, não interage.
Essa é uma grande bobagem. Se fosse assim teríamos que proibir o teatro, o cinema, qualquer tipo de espetáculo.
O futebol é um espetáculo, o espetáculo mais lindo deste planeta. Eu não seria capaz de viver sem ele.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio falando sobre seu amor à bola no encontro com o idolo atleticano Reinaldo Lima, no programa (ainda inédito) Encontros para a História, do Sportv.

Pra ler na rede

Nas palavras de Eduardo Galeano o futebol transcende as fronteiras do esporte, do jogo e se transforma em lenda.

É cultura, política, identidade de um povo.

Galeano, como todo uruguaio, é apaixonado por futebol e neste livro faz do jogo a maior das festas pagãs.

Onde ídolos e carrascos se confundem. E a desgraça e o esplendor convivem quase harmoniosamente.

Futebol ao Sol e à Sombra reúne pequenos e deliciosos textos do escritor uruguaio sobre uma de suas maiores paixões.

É impossível não se deliciar com as histórias de Garrincha, Maradona, Pelé, Obdúlio Varella e a mítica Seleção Uruguai dos MOÑOS.

É um daqueles livros gostoso saborosos… Ideal pra ler na rede… ou na cama.

Pra quem gosta e pra quem não gosta de futebol!

Vale lembrar que a LP&M Pocket tem no Brasil uma versão popular do livro. Em média sai por 16 reais nas grandes livrarias ou na web.

O Ídolo – Eduardo Galeano

Em um belo dia a Deusa dos ventos  beija o pé do homem, o maltratado, desprezado pé, e desse beijo nasce o ídolo do futebol. Nasce em berço de palha e barrcao de lata e vem ao mundo abraçado a uma bola.

Desde que aprende a andar, sabe jogar. Quando criança alegra os descampados e baldios, joga e joga e joga nos ermos dos subúrbios até que a noite cai e ninguém mais consegue ver a bola. E, quando jovem, voa e faz voar nos estádios. Suas artes de malabarista convocam multidões, domingo após domingo, de vitória em vitória, de ovação a ovação.

A bola o procura, o reconhece, precisa dele. No peito de seu pé, ela descanse e se embala. Ele lhe dá brilho e a faz falar,  e neste diálogo entre os dois, milhões de mudos conversam.  Os Zé Ninguém, os condenados a serem para sempre ninguém, podem sentir-se alguém por um momento, por obra e graça desses passes devolvidos em um toque, essas fintas que desenham os zês na grama, esses golaços de calcanhar ou de bicicleta: quando ele joga o time tem doze jogadores.

_ Doze? Tem quinze! Vinte!

A bola ri, radiante, no ar. Ele a amortece, a adormece, diz galanteios, dança com ela, e vendo essas coisas nunca vistas, seus adoradores sentem piedade por seus netos ainda não nascidos,  que não estão vendo o que acontece.

Mas o ídolo é ídolo apenas por um momento, humana eternidade, coisa de nada; e quando chega a hora do azar para o pé de ouro, a estrela conclui sua viagem do resplendor à escuridão. Esse corpo está com mais remendos que roupa de palhaço, o acrobata virou paralítico, o artista é uma besta:

_ Com a ferradura, não!

A fonte da felicidade pública se transforma no pára-raios do rancor público:

_ Múmia!

Às vezes, o ídolo não cai inteiro. E às vezes, quando se quebra, a multidão o devora aos pedaços.

Texto Retirado do Livro:

Futebol ao Sol e à Sombra

de Eduardo Galeano