A Mulher do Zico

Enviado por Valéria Prochnow

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Jesuína nasceu em Vitória da Conquista e se um dia ela me contou o porquê de ter vindo parar nas Minas Gerais sinceramente não me lembro. Minha memória de criança sempre se ateve àquela figura espalhafatosa que viveu por um tempo conosco – comigo e com família – na rua Chenade Nasser esquina com Monteiro Lobato – e é assim que me lembro dela hoje. Jesuína dormia num pequeno quarto que tinha uma cama beliche e um armário cheio de recortes de revistas colados nas portas. Lembro das risadas. E dos apelidos que ela botava na gente. Lembro de e das coisas dela, mas não me lembro exatamente da sua silhueta. Sei que é gorda, dessas que abraçam com o corpo todo e que estava sempre cheirando a tempero e a pimenta. E me lembro que Jesuína amava o Zico.

Queria trabalhar pra ele. Pra sempre. Ia ser feliz assim. Mas não só assim. Vivia cantando o Hino do Flamengo e não perdia um jogo: enchia de foguetes seu quarto e a cada gol ou lance bonito, sabe-se lá como, atravessava a avenida Monteiro Lobato e se metia a soltá-los. Vários. Sempre sonhei em ter um portão no muro da minha casa que abrisse para a avenida Monteiro Lobato. Avenida de tráfego intenso e que, ao atravessar minha esquina, dava de encontro com um enorme lote vago, cujo matagal botava medo nos passantes ao anoitecer. E era lá que Jesuína se metia: Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiico! E chorava. Era verdadeira e ingenuamente apaixonada por ele. E pelos jogos e pelo Mengão.

Eu que devia ter uns nove, de anos, custava a entender: tudo terminava em Zico. Digo, as palavras: pra minha irmã mais nova, a mamadeira era mamazico. Pra mim e pra minha irmã quase da minha idade (mas ainda mais nova) era o papazico tá na mesa! Pra minha mãe era o cafezico, pro meu pai o pãozico e por aí vai… Jesuína falava e vivia essas coisas do futebol sempre com um radinho ou com um novo pôster do Zico. Fanatismo? Não. Coisas de Jesuína, a mulher que sonhava em trabalhar pro Zico e que soltava foguetes. Jesuína genuína, que chorava a cada gol, que ficava ansiosa logo cedo e que torcia com a camisa, fazendo a comidinha, sorrisão no rosto, gestos grandes, generosos. 

Jesuína foi morar com a gente na década de 80, ficou por pouco tempo. Teve que ir pra São Paulo cuidar dos sobrinhos e da irmã que estava doente. Sei que continua por lá, cuidando dos sobrinhos; casou-se de novo, já deve ser avó. Imagino-a ainda gorda, cabelos grisalhos, cercada pelos netos na cozinha. Exceto em dias de jogo

A Comedora de Ópio

valzitaavatarNome: Valéria Prochnow, mais conhecida por Val

Cidade: Belo Horizonte

Profissão: Jornalista de estudo, Sonhadora de ideal e Interneteira de paixão

Clube do Coração: Cruzeiro pelo pai, Galo e Barça por mim, jejejeje!

Blog: Não deixa de ler o Ópio, mas curte mesmo os Devaneios. Atualmente está atolada demais em seus freelas, sem tempo para Blogs.

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