Um beija flor entre os leões indomáveis

O Giuseppe Meazza nunca mais foi o mesmo depois daquele oito de junho. Quantos derbys dellaa madonnina já passaram, quantos craques já pisaram seu gramado, quantas vezes as redes já balançaram ali, mas nunca mais como naquela mágica tarde de oito de junho.

De um lado os argentinos com toda sua tradição, classe e soberba. Envoltos no manto alviceleste, os hermanos desfilavam pálidos, lúridos, atônitos com tamanho fulgor vindo dos adversários; aqueles verdadeiros leões vestidos de verde, amarelo e vermelho que, com seu negrume, pareciam carregar todas as cores do mundo.

El pibe deoro não conseguia brilhar, era ofuscado pelas presas africanas que logo se converteriam em predadoras, destruindo em segundos a glória de dois mundiais, a história de mais de um século de futebol em terras platinas.

Aos vinte e dois minutos do segundo tempo uma falta que Makanaky desviou meio sem jeito no primeiro pau. A bola subiu, roçou as nuvens de Milão e, provavelmente, foi tocada por um dos Deuses dos estádios, quem sabe Schiavio, quem sabe Santagostino ou até mesmo Meazza.

Quando a esfera atingiu o topo de sua parábola, faltando muito pra voltar ao campo de jogo, François Omam-Biyik saltou e os argentinos o olharam com estranheza. O camisa sete esguio e desengonçado não se deteve com o assombro dos adversários e simplesmente pairou. Durante minutos ficou ali, parado sobre a cabeça de Néstor Sensini, como um beija flor. Sem se importar com o tempo nem com a distância, só esperando pacientemente a bola voltar.

E quando ela voltou bastou um leve toque de cabeça para vencer o goleiro argentino e encher de alegria as redes do San Siro. As cores da África invadiam a Itália, pintavam o mundo.

Naquela tarde de oito de junho, o verde, o amarelo e o vermelho representaram muito mais que a união do continente negro, simbolizaram o conúbio de todo universo da bola com aqueles guerreiros de ébano, com aqueles leões indomáveis.

E entre os leões, havia um beija flor.

Imagem: Kenyan List
Vídeo: Obsessional TV

Argentina Hahaha!

Hoje François Omam-Biyik completa 43 anos de idade. Mas quem é Omam-Biyik? O vídeo abaixo mostra um pouco do atacante camaronês que passou pelo futebol mexicano nos anos 90.

Omam-Biyik foi o protagonista de partida inaugural da Copa do Mundo da Itália, em 1990. Camarões ecandalizou o mundo ao bater a poderosa Argentina, campeã da Copa de 86 no México.

Camarões já havia surpreendido o mundo ao empatar com a Itália na Copa de 82, mas eu só tinha um ano. Em 90 eu já tinha 9 e fiquei encantado com aquele time de roupas tão coloridas e futebol tão ofensivo, bonito.

A zebra africana provocou uma cena que sou incapaz de me esquecer. Não por ter sido importante, crucial, nada disto. É destas coisas que nos marcam sem um motivo muito nítido, uma cena mundana, cotidiana. Da qual, pelos meandros indecifráveis do nosso subconsciente, não podemos nos separar.

Como já disse eu tinha 9 anos e estudava no Instituto de Educação de Minas Gerais, ou na Escola Estadual Luiz Peçanha, como nossas professoras gostavam que escrevêsemos. E como na maioria da escolas públicas do país, podíamos assistir aos jogos do Mundial, afinal, é de 4 em 4 anos

Eu assistia o jogo com os olhos enfeitiçados pelas cores da África. Sem saber eu me via naqueles jogadores, na união que eu nem imaginava representar o verde, o amarelo e o vermelho.

E de repente aquele gol. Omam-Biyik subiu como um beija flor, como um Dadá Maravilha. Subiu mais alto que o topo do mundo e ali ficou parado por segundos que me pareceram horas. A cabeçada foi fraca, no meio da baliza. Mas não tinha jeito, tinha que ser gol. Obrigado Pumpido!

E então veio a cena. Dezenas de crianças em fila indiana, meninos e meninas gritando, cantando em alto e uníssono som: Argentina Hahaha, Argentina hahaha! Lembro-me da cena como se fose hoje, inclusive Marcelo Pirelli, o grande capitão – sem comparações a Obdulio, pois a este ninguém se compara – fazia parte do coro, embora não acredite que ele se lembre disto.

crianças memoria afetiva copa de 90 omam_biyik

Como já expliquei, não sei porque esta cena me marcou tanto. Talvez pela descoberta da beleza do futebol que convida ao lúdico e permite molecagens de dar inveja a qualquer Saci. Talvez pela descoberta das cores, da África unida nesta trilogia cromática. Talvez tenha sido aí que reconheci, pela primeira vez, minhas raízes.

Imagens Originais: Mercado Ético e FFFFound