Números super interessantes

super_interessante-outubro-2009A dica – mais uma vez – é da Val.

A revista Super Interessante – em sua edição deste mês – publicou na seção Banco de Dados uma matéria muito bacana com números super interessantes – se me permitem o trocadilho – sobre o mundo do futebol.

O texto é assinado por Henrique Ribeiro e leva o título Na Terceira Divisão, uma irônica e ótima sugestão sobre o lugar em que nos encontramos – fora das quatro linhas – no universo da bola.

A questão básica que se apresenta através dos números colocados por Henrique é se somos realmente o país do futebol?

Abaixo reproduzo o que li na revista.

Money-Soccer-ball∞ 1,4 bilhão de reais é a soma das receitas dos 21 principais times de futebol do Brasil.
Se estes 21 times fossem uma empresa, ela seria a 130ª no ranking corporativo nacional.

∞ A divisão geográfica desta receita é a seguinte:

São Paulo < 40,2% – 570 milhões, 668 mil reais.
Rio de Janeiro < 20,3% – 287 milhões, 742 mil reais.
Rio Grande do Sul < 17% – 241 milhões, 206 mil reais.
Minas Gerais < 10,7% –  151 milhões, 701 mil reais.
Paraná < 7,1% – 99 milhões, 430 mil reais.
Santa Catarina < 2% – 28 milhões, 322 mil reais.
Pernambuco < 1,4% – 19 milhões, 756 mil reais.
Bahia < 1,3% – 18 milhões, 882 mil reais.

money_tree-árvore_de_dinheiro∞ Todos os times brasileiros juntos representam 0,048% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil.
Só Barcelona e Real Madrid correspondem a 0,062% do PIB espanhol.

∞ 1176 jogadores trocaram clubes brasileiros por estrangeiros em 2008.
659 fizeram o caminho inverso.

∞ A TV Globo paga 400 milhões de reais por ano pelos direitos de transmissão do campeonato brasileiro da 1ª divisão.
116 milhões é o preço de cada uma das 5 cotas de patrocínio vendidas pela emissora para o futebol de 2010.

∞ 380 mil brasileiros são sócios-torcedores de seus respectivos clubes e pagam mensalidade média de 20 reais.
26% destes sócios torcedores são do Inter de Porto Alegre.

∞ 40 mil reais é o custo médio anual da manutenção de um jogador de categoria de base no Brasil.

∞ 1,1 milhão de reais é o rendimento mensal do ronaldo Fenômeno, jogador mais bem pago do futebol brasileiro.
80% deste valor vem de patrocínios e apenas 20% do Corinthians.

soccer-and-money-ball-toon∞ 250 milhões de reais foi o valor pago pelo Real Madrid ao Manchester United para adiquirir o futebol do português Cristiano Ronaldo.
Nem todo o faturamento de Flamengo e Corinthians juntos no ano de 2008 (235 milhões de reais) daria para comprar os direitos do CR7.

∞ 39,5 bilhões de reais é o investimento previsto para a realização da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

∞ Na Europa, 169 pessoas desistem de se matar em ano de Copa do Mundo.

∞ 715 milhões de pessoas assistiram pela TV a final da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.
4 vezes mais que a audiência da última edição do SuperBowl (final do futebol americano que tem  o segundo mais caro da publicidade televisiva mundial).

∞ 265 milhões de pessoas jogam futebol no planeta.
Isto representa 4% da população mundial.

∞ Destes 265 milhões de praticantes, 26 milhões estão na China, país com maior número de futebolistas no mundo.
No Brasil são 13 milhões de praticantes.

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∞ 19% da população alemã joga futebol.
No Brasil este número é de 7%.

∞ A Inglaterra possui 40 mil times de futebol.
O Brasil tem 29 mil.

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∞ O maior estádio de futebol do Mundo fica na Coréia do Sul (na matéria da Super Interessante saiu Coréia do Sul, mas na realidade o estádio em questão é o Rungrado May Day, na cidade de Pyongyang na Coréia do Norte) com capacidade para 150 mil espectadores.
No Brasil o maior estádio comporta 87 mil pessoas.

∞ O último campeonato alemão teve média de público de 41 mil, 904 espectadores.
No último Brasileirão a média foi de  16 mil 992 pessoas por partida.

Imagens: Soccer Picks Site, Mexico in Small Bytes, Baixe Muito, Estádios de Portugal e do Mundo, Flicker do Samer! e Czech Mate Diary
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O país do médico de futebol

medicina esportiva o país do futebol o país do médico de futebolQue o mundo de hoje já não é o mesmo dos tempos em que nasci, isto é fato. E consumado. Assim como também é vero que as mudanças são cada vez mais velozaes e, às vezes, até imperceptíveis.

Eu nasci em 1980 e, mesmo com a seca de copas que só teve fim em 94, cresci em uma Terra conhecida e reconhecida como o País do Futebol. Do carnaval também, da corrupção, da malandragem, da hipocrisia. Mas hoje falaremos só de bola.

Os anos se passaram, vieram dois títulos mundiais, craques que ousamos comparar, ou equiparar, aos grandes monstros sagrados do futebol. E o Brasil seguia sendo o País do Futebol

Os anos 90 inseriram neste contexto a tal globalização, que finalmente aportava, de uma vez por todas, no universo da bola. Os senhores do mundo começaram a vir aqui com mais frequência para fazer a feira do futebol. Pernas baratas, parafraseando e distorcendo, um pouquinho, o ídolo Galeano. Que não confundam com Galiani, este só aparecerá no texto depois.

Janelas abertas, debandada geral. E mesmo assim seguíamos sendo o País do Futebol

De uns anos pra cá um novo elemento apareceu. Jogadores brasileiros contundidos que atuam na Europa começaram a vir ao Brasil para se recuperarem. Eu sempre desconfiei do discurso de que aqui, a estrutura de recuperação é muito melhor que a dos clubes europeus. É um discurso difícil de acreditar visto a realidade precária dos nossos clubes.

Sempre acreditei mais na teoria de que essa era uma ótima desculpa pra voltar pra casa, rever amigos e família, comer feijoada e se divertir com aquele pagodinho pavoroso. E claro, serem mimados como lá fora não são. 

Ontem Kaká anunciou que da próxima vez que se machucar tomará decisões diferentes em relação a seu tratamento. Nas entrelinhas, que não irá tratar-se mais no Milan Lab. No dia anterior, Dunga falou que o meia havia se tratado 5 semanas no Milan sem muito resultado e que, com 6 dias com a equipe médica da seleção, já estava pronto pra jogar. Kaká também foi por este lado e a diretoria milanista não gostou das declarações.

Do outro lado do Atlântico, Eduardo Galiani respondeu dizendo que o tratamento médico-fisioterápico tem uma sequência e que é lógico que Kaká tenha melhorado aqui, onde foi feita a última parte da recuperação. E acrescentou que o mesmo teria acontecido se ele tivesse ficado na Itália.

Comentando a notícia, rápido como é, do Beira Rio o PVC soltou esta na Espn Brasil:

Engraçado né, éramos  oPaís do Futebol, agora somos o País do Médico de Futebol. Todo mundo quer jogar lá e se tratar aqui.

Perfeita a colocação do Paulo Vinícius. Ainda mais depois de ver a seleção do anão ser massacrada pelo Equador (39 finalizações contra o Brasil!). Cada partida da seleção que vejo me reforça ainda mais esta verdade, não somos mais o País do Futebol. Pelo menos não do futebol arte, do futebol alegria, do jogo bonito.

O que nos resta então?

Que sejamos o país do médico, do fisiologista, do fisioterapeuta de futebol

Imagem: Buick

A Elitização do Futebol e a Revolução

Brasil é denominado de diversas formas. 

O país do futebol, do carnaval, da bunda, do futuro e por aí vai. 

Na humilde opinião deste comedor de ópio o Brasil é o país da contradição. Pra mim e pro grande síndico Tim Maia que certa vez sabiamente disse 

O Brasil é o país das contradições: Puta goza, cafetão sente ciúmes, traficante cheira e pobre é de direita.

Dentre os milhares de paradoxos na cultura tupiniquim, o que mais me chama atenção é como um país, que possui uma cultura popular tão vasta e tão rica, pode ter tanta tendência ao elitismo.

No início desta história que chamamos República, importamos mão de obra italiana e alemã com gordos subsídios governamentais. Tudo para ficarmos – ao longo do tempo – com as bochechas mais rosadas, mais europeus. Enquanto isso a população negra morria de fome no pós abolição, sem terra e sem direitos básicos, inclusive educação.

Esculhambamos Antônio Conselheiro, matamos seus homens simples, violamos suas companheiras. Para depois de 100 anos pedirmos desculpas nas telonas e nas telinhas.

Marginalizamos o samba, o perseguimos, o botamos no xilindró. E só o aceitamos de verdade quando a Lapa passou a ser frequentada por jovens de olhos verdes impressionados com a musicalidade de Cartola ou Nelson Cavaquinho. Ou quando o samba chegou a Copacabana.

Babamos diante da Plaza Francia na capital portenha, e nos esquecemos que, arquitetônicamente falando, a Praça da Liberdade em Belo Horizonte, a da Sé em São Paulo ou a da República em Belém são muito mais belas, mais elaboradas.

Idolatramos Miami como estilo de vida e até tentamos transformar o Rio, a mais linda das cidades, em uma cópia fajuta da metrópole de plástico estado-unidense. E insistimos em não conhecer a Ilha de  Algodoal, São Jorge ou Cumuru Xatiba.

São muitas contradições. Muitas apropriações. E o carnaval então? Citando o Brown novamente, o carnaval era a festa do povo, era… Hoje passa longe disso.

O tradicional carnaval carioca deteriorou-se em conteúdo e beleza. Os sambas perderam seus enredos e passaram a soar como jingles publicitários, sempre exaltando setores da indústria e celebridades fugazes e endinheiradas. Pouco se vê dos morros no Carnaval Carioca.

A onda carnavalesca agora é o formato baiano. Trio elétrico e cordão pra separar aqueles que são vips daqueles que são apenas povo. Baixaria maior que o próprio axé.

E agora querem fazer o mesmo com o futebol. O movimento de elitização vem de alguns anos. Começou com a história da probição da Geral, espaço mítico e sagrado, templo democrático do futebol brasileiro. De uma hora para outra decidiu-se por baixo dos panos por trás das gravatas eliminar os geraldinos dos estádios. Justo eles, responsáveis pela cor do futebol, pelas nossas gargalhadas mesmo nos domingos de derrota. Mas aqui preferem a polidez antipática da platéia chique de Nothing Hill que assiste ao Chelsea que a autenticidade e irreverência provocante que vem dos setores populares das torcidas brasileiras.

Aliás, a idéia de que elitizar é a solução para o futebol brasileiro nasceu de cartolas incompetentes e sem imaginação, mal embasados no caso inglês da Premiere League. Eles só se esqueceram de mensurar, no Brasil e na terra da Rainha Elizabeth, a importância do esporte como traço identitário e cultural dos dois povos. 

Mas se o processo de elitização do futebol brasileiro foi iniciado com a extinção da Geral, ele foi ainda mais endossado pela gestora máxima do esporte no país, a CBF. A casa da seleção canarinho não é mais o Maracanã, mas o Emirates Stadium do Arsenal, em Londres. É aí que a turma do Ricardo Teixeira prefere mandar seus jogos. O porquê nunca foi devidamente esclarecido, mas todos imaginam a razão.

E quando a seleção joga aqui os preços são sempre absurdos e abusivos, longe, mas muito longe da realidade nacional. Isto quando os ingressos existem, porque muitas vezes as partidas não passam de festinhas para políticos e atores globais, como no amistoso contra Portugal e nos jogos-festas promovidos pelo governador playboy Aécio Neves

Não bastasse, agora querem transformar o Batistão de Aracaju no Emirates do Nordeste, tenha dó Marcelo Déda!

Mas o disparate final chegou com a última rodada do brasileirão. O Goiás estipulou o preço dos ingressos para a partida decisiva contra o São Paulo em nada mais nada menos que 400 REAIS. Um salário mínimo se não ligarmos pro troco. Chega a dar nojo. Só aí entendi a marcação da partida para o Bezerrão. 400 reais é um preço que só aqueles que mamam – e muito – nas tetas do país podem pagar para ver um jogo de futebol. 

E o pior é a cara de pau do clube goiano de se fazer de bonzinho na mídia nacional. Através do cartola Edmo Pinheiro, o Goiás adotou o discurso do bom samaritano reclamando dos altos custos impostos pela administração do estádio e informando que havia liberado meia entrada para todos que levassem 1 brinquedo, 1 agasalho ou 1 quilo de alimento não perecível para as vítimas das chuvas em Santa Catarina.

O preço de 400 reais pegou tão mal que até a CBF intercedeu junto ao esmeraldino. O time goiano aceitou reduzir o valor, mas juntamente cortou toda a solidariedade que havia demonstrado um dia antes na ESPN Brasil. Com preços menores acabou a meia entrada… e que se fodam os barrigas-verdes.

Por interferência do Procom do Distrito Federal, o Goiás, sob protestos, foi obrigado a baixar ainda mais o preço dos ingressos. Ainda sim continuam caros. Ainda sim não convergem com a realidade do país.

O Futebol é uma das poucas opções de diversão que a população de baixa renda ainda tem acesso. Longe de shows, do cinema e do teatro, as classes mais pobres ainda se ligam na arte dos gramados, ainda torcem por ela, ainda sofrem com ela.

Retirar o futebol do povo é amputar parte de nossa história, de nossa cultura. Aqui o futebol não é simplesmente um esporte, muito menos um mero negócio. O futebol é um traço importante de nossa cultura, de nossa identidade de povo. Nossa dimensão continental nos dá poucas chances à unidade. Somos um povo fragmentado em diversas culturas, sotaques, culinárias e costumes. E o futebol é uma das poucas coisas inerentes tanto ao gaúcho dos pampas quanto ao manauara do norte.

Sem o futebol, restará às classes da base da pirâmide social o boteco da esquina, o terreiro da rua de trás e a igreja da praça ao lado. Além de lesado em sua cultura o povo perderá ainda sua maior tribuna, seu lugar de estravasar os ressentimento por toda exploração e injustiça cometida neste país.

Excluir o pobre do futebol brasileiro poderá ter o efeito de acender o pavio de uma bomba gigante alimentada pelo sistema exploratório ao qual somos subjugados. Embora a maioria pense que o futebol não passa de um alienador, um Ópio para o Povo faminto, o esporte bretão pode ser o detonador ou o apaziguador de distúrbios sociais como já o fez no Líbano, no Irã e mais recentemente no Haiti.

Bem, se é pra viver sem futebol, então que venha a revolução!