A Elitização do Futebol e a Revolução

Brasil é denominado de diversas formas. 

O país do futebol, do carnaval, da bunda, do futuro e por aí vai. 

Na humilde opinião deste comedor de ópio o Brasil é o país da contradição. Pra mim e pro grande síndico Tim Maia que certa vez sabiamente disse 

O Brasil é o país das contradições: Puta goza, cafetão sente ciúmes, traficante cheira e pobre é de direita.

Dentre os milhares de paradoxos na cultura tupiniquim, o que mais me chama atenção é como um país, que possui uma cultura popular tão vasta e tão rica, pode ter tanta tendência ao elitismo.

No início desta história que chamamos República, importamos mão de obra italiana e alemã com gordos subsídios governamentais. Tudo para ficarmos – ao longo do tempo – com as bochechas mais rosadas, mais europeus. Enquanto isso a população negra morria de fome no pós abolição, sem terra e sem direitos básicos, inclusive educação.

Esculhambamos Antônio Conselheiro, matamos seus homens simples, violamos suas companheiras. Para depois de 100 anos pedirmos desculpas nas telonas e nas telinhas.

Marginalizamos o samba, o perseguimos, o botamos no xilindró. E só o aceitamos de verdade quando a Lapa passou a ser frequentada por jovens de olhos verdes impressionados com a musicalidade de Cartola ou Nelson Cavaquinho. Ou quando o samba chegou a Copacabana.

Babamos diante da Plaza Francia na capital portenha, e nos esquecemos que, arquitetônicamente falando, a Praça da Liberdade em Belo Horizonte, a da Sé em São Paulo ou a da República em Belém são muito mais belas, mais elaboradas.

Idolatramos Miami como estilo de vida e até tentamos transformar o Rio, a mais linda das cidades, em uma cópia fajuta da metrópole de plástico estado-unidense. E insistimos em não conhecer a Ilha de  Algodoal, São Jorge ou Cumuru Xatiba.

São muitas contradições. Muitas apropriações. E o carnaval então? Citando o Brown novamente, o carnaval era a festa do povo, era… Hoje passa longe disso.

O tradicional carnaval carioca deteriorou-se em conteúdo e beleza. Os sambas perderam seus enredos e passaram a soar como jingles publicitários, sempre exaltando setores da indústria e celebridades fugazes e endinheiradas. Pouco se vê dos morros no Carnaval Carioca.

A onda carnavalesca agora é o formato baiano. Trio elétrico e cordão pra separar aqueles que são vips daqueles que são apenas povo. Baixaria maior que o próprio axé.

E agora querem fazer o mesmo com o futebol. O movimento de elitização vem de alguns anos. Começou com a história da probição da Geral, espaço mítico e sagrado, templo democrático do futebol brasileiro. De uma hora para outra decidiu-se por baixo dos panos por trás das gravatas eliminar os geraldinos dos estádios. Justo eles, responsáveis pela cor do futebol, pelas nossas gargalhadas mesmo nos domingos de derrota. Mas aqui preferem a polidez antipática da platéia chique de Nothing Hill que assiste ao Chelsea que a autenticidade e irreverência provocante que vem dos setores populares das torcidas brasileiras.

Aliás, a idéia de que elitizar é a solução para o futebol brasileiro nasceu de cartolas incompetentes e sem imaginação, mal embasados no caso inglês da Premiere League. Eles só se esqueceram de mensurar, no Brasil e na terra da Rainha Elizabeth, a importância do esporte como traço identitário e cultural dos dois povos. 

Mas se o processo de elitização do futebol brasileiro foi iniciado com a extinção da Geral, ele foi ainda mais endossado pela gestora máxima do esporte no país, a CBF. A casa da seleção canarinho não é mais o Maracanã, mas o Emirates Stadium do Arsenal, em Londres. É aí que a turma do Ricardo Teixeira prefere mandar seus jogos. O porquê nunca foi devidamente esclarecido, mas todos imaginam a razão.

E quando a seleção joga aqui os preços são sempre absurdos e abusivos, longe, mas muito longe da realidade nacional. Isto quando os ingressos existem, porque muitas vezes as partidas não passam de festinhas para políticos e atores globais, como no amistoso contra Portugal e nos jogos-festas promovidos pelo governador playboy Aécio Neves

Não bastasse, agora querem transformar o Batistão de Aracaju no Emirates do Nordeste, tenha dó Marcelo Déda!

Mas o disparate final chegou com a última rodada do brasileirão. O Goiás estipulou o preço dos ingressos para a partida decisiva contra o São Paulo em nada mais nada menos que 400 REAIS. Um salário mínimo se não ligarmos pro troco. Chega a dar nojo. Só aí entendi a marcação da partida para o Bezerrão. 400 reais é um preço que só aqueles que mamam – e muito – nas tetas do país podem pagar para ver um jogo de futebol. 

E o pior é a cara de pau do clube goiano de se fazer de bonzinho na mídia nacional. Através do cartola Edmo Pinheiro, o Goiás adotou o discurso do bom samaritano reclamando dos altos custos impostos pela administração do estádio e informando que havia liberado meia entrada para todos que levassem 1 brinquedo, 1 agasalho ou 1 quilo de alimento não perecível para as vítimas das chuvas em Santa Catarina.

O preço de 400 reais pegou tão mal que até a CBF intercedeu junto ao esmeraldino. O time goiano aceitou reduzir o valor, mas juntamente cortou toda a solidariedade que havia demonstrado um dia antes na ESPN Brasil. Com preços menores acabou a meia entrada… e que se fodam os barrigas-verdes.

Por interferência do Procom do Distrito Federal, o Goiás, sob protestos, foi obrigado a baixar ainda mais o preço dos ingressos. Ainda sim continuam caros. Ainda sim não convergem com a realidade do país.

O Futebol é uma das poucas opções de diversão que a população de baixa renda ainda tem acesso. Longe de shows, do cinema e do teatro, as classes mais pobres ainda se ligam na arte dos gramados, ainda torcem por ela, ainda sofrem com ela.

Retirar o futebol do povo é amputar parte de nossa história, de nossa cultura. Aqui o futebol não é simplesmente um esporte, muito menos um mero negócio. O futebol é um traço importante de nossa cultura, de nossa identidade de povo. Nossa dimensão continental nos dá poucas chances à unidade. Somos um povo fragmentado em diversas culturas, sotaques, culinárias e costumes. E o futebol é uma das poucas coisas inerentes tanto ao gaúcho dos pampas quanto ao manauara do norte.

Sem o futebol, restará às classes da base da pirâmide social o boteco da esquina, o terreiro da rua de trás e a igreja da praça ao lado. Além de lesado em sua cultura o povo perderá ainda sua maior tribuna, seu lugar de estravasar os ressentimento por toda exploração e injustiça cometida neste país.

Excluir o pobre do futebol brasileiro poderá ter o efeito de acender o pavio de uma bomba gigante alimentada pelo sistema exploratório ao qual somos subjugados. Embora a maioria pense que o futebol não passa de um alienador, um Ópio para o Povo faminto, o esporte bretão pode ser o detonador ou o apaziguador de distúrbios sociais como já o fez no Líbano, no Irã e mais recentemente no Haiti.

Bem, se é pra viver sem futebol, então que venha a revolução!

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