Nada a Ver Com Futebol

PREGUIÇA- PABLO NERUDA

Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou cratura preguiçosa,
contentei-me em olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou ministérios.

Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas
e com todas minhas mãos 
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.

Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.

Nada a ver com futebol né? Mas comigo hoje…

Poema extraído do livro Últimos Poemas (1973) – Original El Mar Y Las Campanas

O Divino João Cabral

Há exatos 9 anos o mundo perdia o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto.

Mestre das palavras, João Cabral também mandava bem com a bola no pé.

Em 1935 chegou a ser campeão pernambucano juvenil jogando pelo Náutico.

Por sorte ele desistiu do futebol para nos encantar com sua poesia.

Mas do amado esporte…

 nos deixou algumas pérolas….

 

O DIVINO, ADEMIR DA GUIA

 

Ademir impõe com seu jogo

o ritmo do chumbo ( e o peso)

da lesma, da câmera lenta,

do homem dentro do pesadelo.

 

Ritmo Líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o.

 

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

o mais irriquieto adversário.

Continue lendo